
Sem vilões ou mocinhos, “O Drama” transita entre provocar o riso nervoso e o desconforto social
Estrelado por Zendaya e Robert Pattinson, “O Drama” é o novo filme da A24, que transforma um segredo do passado em um thriller psicológico sobre moralidade e desconfiança
Existem filmes que nos confortam e filmes que nos desafiam. “O Drama”, a nova aposta da A24 que chega aos cinemas brasileiros no dia 9 de abril, com certeza pertence à segunda categoria. Com roteiro e direção de Kristoffer Borgli (que já havia demonstrado seu talento para o desconforto social em O Homem dos Sonhos), a obra é uma análise sobre como a verdade, ou a percepção dela, pode implodir a fundação de uma vida aparentemente perfeita.
O filme nos apresenta a Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson). À primeira vista, eles são o “casal propaganda” de qualquer comédia romântica: apaixonados, sintonizados e a apenas uma semana do esperado “sim” no altar. A química entre os protagonistas é instantânea e serve como uma armadilha narrativa brilhante. Borgli estabelece um primeiro arco ensolarado e leve, onde tudo parece seguir o figurino.
A virada de chave acontece em um momento casual com os padrinhos e melhores amigos do casal, Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). A pergunta sobre qual foi a “pior coisa” que cada um já fez na vida começa como uma brincadeira inofensiva, mas acaba se tornando o ponto de não retorno. Quando Emma revela seu segredo, o filme abandona a estética de romance e mergulha em um suspense psicológico e moral onde o silêncio grita mais alto que qualquer discussão. A forma como a informação pesa na narrativa é o grande trunfo do roteiro.

Zendaya e Robert Pattinson entregam aqui, sem exagero, alguns dos melhores momentos de suas carreiras. Zendaya constrói uma Emma que não busca a simpatia fácil do espectador, em vez disso, entrega uma performance cheia de camadas, onde a vulnerabilidade e uma frieza enigmática coexistem.
Do outro lado, Pattinson interpreta a descida ao abismo. Seu Charlie é o “homem comum” cuja bússola moral é subitamente posta à prova. Ele transita de um noivo ansioso, apaixonado e empolgado com o casamento para um homem consumido por uma paranoia crescente, questionando não apenas a parceira, mas cada escolha que precisa fazer dali em diante. A dinâmica entre eles, somada ao suporte fundamental de Alana Haim e Mamoudou Athie (que servem como o público dentro da tela por meio de suas reações ao caos), eleva o filme a um patamar de realismo desconcertante.
A direção de Borgli é potencializada por uma montagem ágil e inteligente. “O Drama” utiliza dinâmicas de edição que alternam cortes rápidos com sequências longas e diálogos diluídos que constroem sem pressa a tensão da narrativa. Há um uso sagaz de saltos temporais e até de cenas que exploram a imaginação dos personagens, materializando seus medos e constrangimentos de forma visual. Aqui, a técnica funciona em prol da narrativa, e não o contrário.
Tudo isso é embalado pela trilha sonora de Daniel Pemberton. A música não apenas acompanha a trama, mas também dita o ritmo cardíaco do espectador. Pemberton cria uma atmosfera imersiva que ajuda a conduzir a transição entre o riso nervoso e a tensão absoluta.

Embora o material de divulgação possa sugerir uma comédia ou um romance (ou os dois), “O Drama” faz jus ao título. O humor existe, mas é pontual, ácido e inteligente, mesmo em momentos de pura tensão, quase como se o filme não tivesse a intenção de ser engraçado, mas não pudesse evitar. É uma obra que não tem medo de ser estranha.
O roteiro, contudo, recusa-se a oferecer respostas fáceis e mastigadas para questões complexas. Borgli utiliza o conflito do casal para fazer uma provocação profunda a problemas sociais latentes na cultura norte-americana, mas o faz em um nível psicológico, discutindo culpa e responsabilidade sem apontar dedos de forma simplista.
O objetivo de “O Drama” não é fechar sua narrativa com um laço bonito e apresentar uma solução para o problema, é deixar o espectador com o peso da reflexão ao escancarar as próprias hipocrisias e ambiguidades dos personagens. Alguns podem interpretar essa escolha como falta de coragem, mas a verdade é que o filme é seguro o suficiente para confiar na inteligência do público. É uma obra que nos obriga a olhar para nossos próprios princípios e perguntar: “E se fosse eu sentado naquela mesa?”.
“O Drama” estreia nos cinemas brasileiros no dia 9 de abril. Confira o trailer:
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