
Com boas intenções, “As Histórias de Meu Pai” reflete sobre abuso parental
Ainda que com ótimas atuações, “As Histórias de Meu Pai” traz ótimas atuações para refletir sobre a loucura da má paternidade
Quando na infância, todos somos muito impressionáveis com relação ao que nos é contado, principalmente por uma figura paterna que detém grande parte do nosso amor ainda lúdico e inocente. Na vida do jovem Émile (Jules Lefebvre), o mundo ganhava cor com as histórias contadas por seu pai – para o bem ou para o mal.
Dirigido por Jean-Pierre Améris, estreou essa semana “As Histórias de Meu Pai”, filme que apresenta o jovem Émile (Jules Lefebvre), que enxerga o mundo através das palavras de seu pai, interpretado por Benoît Poelvoorde. Sendo influenciado pelo que lhe era contado, Émile se viu iludido dentro do que não lhe era devido. Odiava pessoas e partidos; amava ideais deturpados; e se via no papel de idolatrar um homem louco, cujos abusos para com o filho iam além do físico, mas também da mente.

No longa, André conta ao filho histórias sobre seu passado glorioso lutando pela França, e coloca em sua cabeça que o governo atual é vil e merece ser derrubado – custe o que custar. Além disso, exige que o filho alcance todas suas expectativas, por mais loucas que sejam. Desde exercícios físicos intensos até missões perigosas ao redor da cidade, o espectador é convidado a acompanhar o lunatismo de André, que transpassa para um exemplo claro de abuso parental.
Vemos um reflexo das cicatrizes internas do filho em seus trabalhos escolares, pois tudo o que sabe fazer ali é desenhar figuras assustadores – uma arte bela, mas claramente carregada de escuridão e angústia.
Tal qual qualquer abuso parental, é absorvido por Émile, causando fortes traumas que serão carregados pela vida, e fazendo com que isso molde sua forma de entender o mundo e a si mesmo. Como muitos casos que refletem a realidade, também somos apresentados à mãe Denise (Audrey Dana), que é o único abrigo do filho contra os abusos do pai, e a única que tenta protegê-lo nas horas de aperto. Ainda assim, a matriarca não é poupada da bruta violência causada pelo antagonista desta história, sendo diversas vezes humilhada e atacada pelo patriarca.

A partir disso, nota-se que o filme tem tudo o que é necessário para ser excelente: desvendamos a relação entre o jovem protagonista e seu pai aos poucos, onde inicialmente André parece um homem gentil e solícito para com o filho, se transformando aos poucos no monstro conturbado que realmente o é. Vemos, também, a admiração do garoto se transformar em uma desilusão com relação ao mundo, regredindo rapidamente para um medo desesperador daquele que devia amá-lo e protegê-lo.
Ainda assim, a obra de Jean-Pierre Améris não sabe o clima que deseja manter. Em alguns momentos, passa a impressão de que não sabe se quer ser uma comédia ou se quer ser um drama – não atingindo o equilíbrio e a fluidez necessária para ser chamado de dramédia.

Nota-se, entretanto, uma tentativa de guiar a atmosfera da obra com relação ao ponto de vista do pequeno Émile. Quando o jovem está sendo forçado a fazer exercícios intensos apenas para satisfazer uma visão doentia do pai, tais abusos são retratados com leveza, quase como uma brincadeira – porque é exatamente como Émile enxerga aquela situação. Porém, quando o protagonista se apavora, todo o ritmo e atmosfera do longa sofrem uma guinada repentina, e tudo se torna tenso e apreensivo, assim como os sentimentos do garoto.
Assim, “As Histórias de Meu Pai” se mostra um filme promissor, com o intuito de retratar as feridas que o abuso parental pode causar. Ainda que com algumas falhas de ritmo, é uma experiência interessante para aqueles que desejam, durante quase duas horas, adentrar na mente de uma criança cuja inocência está sendo roubada, pouco a pouco, pelo próprio pai – assim como acontece com tantos jovens espalhados por aí.
“As Histórias de Meu Pai” é um lançamento da Pandora Filmes e já está disponível nos cinemas.
Comentários