
Olho por Olho: Qual o preço da vingança quando a justiça falha? Conheça a trama do novo livro de Eliane Cristina
Em “Olho por Olho”, Eliane Cristina questiona os limites do livre-arbítrio a partir de crime que atravessa gerações
Depois da vingança, o que sobra? Na Lei de Talião, do Código de Hamurábi, a premissa do “dente por dente” objetivava impor limite à punição e estabelecer equivalência entre o dano sofrido e a pena aplicada. Mesmo após séculos, a regra continua sendo justificativa para aqueles que desejam reparar os infortúnios com as próprias mãos. Mas quanto custa buscar a justiça pessoal?
No livro Olho por Olho: ecos do imperdoável, de Eliane Cristina, a violência silencia uma família à beira do Rio dos Sinos. O crime, combinado à censura das vítimas e ao apagamento das provas, deixou uma lacuna preenchida pelo rancor. O sentimento reverbera por anos até ser posto à prova com a execução de um plano vingativo, movido pela espera de uma reparação nunca feita.
Ambientada em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, a obra também contextualiza a vida de imigrantes alemães que chegaram à cidade após a década de 1910. A partir da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a narrativa situa as consequências enfrentadas pelos estrangeiros, entre elas a repressão política e cultural, a proibição da língua alemã e o desapossamento de terras. Ao conectar passado e presente, a história contempla como vivências coletivas interferem na construção de cicatrizes individuais.
Mudei muito depois desse acontecimento. O menino de 10 anos
parecia ter envelhecido. Não se conformava com as respostas
simples dadas para tamanha violência.
(Olho por Olho: ecos do imperdoável, p. 45)
O livro encara de forma sensível as reflexões filosóficas e psicológicas da humanidade. Eliane Cristina, também autora do romance Marias (2025) e do livro infantil O Rapto das Cores (2025), não mostra a vingança como um ato isolado, mas como o resultado de uma construção de fatores – internos ou externos. A dualidade e o simbolismo das decisões humanas são questionados ao longo de 11 capítulos, que aproximam estes temas universais da realidade de cada indivíduo.
Dilemas sobre livre-arbítrio, perdão e violência contornam os dramas espelhados nas vivências dos leitores. Diante dos embates de personagens como Otto e Manoel, a produção literária ecoa o peso inevitável das escolhas. Compaixão ou decepção? Apoio ou revolta? Olho por Olho dispensa o julgamento e reforça que ninguém está imune às próprias direções, sejam elas boas ou más.
Conheça mais sobre a obra e a autora na entrevista a seguir:
- “Olho por Olho” aborda um assunto universal: a vingança. Quais são os pontos que lhe interessam dentro deste tema?
Eliane Cristina: Os ecos emocionais da escolha pela vingança, ou seja, as consequências e repercussões na vida de quem a escolhe como opção para reparar uma dor muito profunda.
- A narrativa é ambientada em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. O que motivou a escolha da localização?
E.C.: Eu queria ter como cenário um rio que atravessasse uma cidade, uma estação de trem, um clima frio e a imigração entre guerras. São Leopoldo foi a cidade que reunia esses fatores, inclusive a imigração alemã como parte preponderante da formação da cidade.
- O livro também faz uma retrospectiva para contextualizar a vida de imigrantes alemães que chegaram ao Brasil após a década de 1910. Como você desenvolveu a pesquisa para escrever sobre esse período?
E.C.: Eu já havia lido a obra “O Tempo e O Vento”, de Érico Veríssimo, que trata sobre a formação do Rio Grande do Sul e o papel da imigração nesse contexto. Fontes como o e-book do Museu Visconde também me trouxeram imagens, informações e inspirações.
- A produção trata sobre temas como perdão, livre-arbítrio e violência. Quais reflexões você buscou trazer sobre cada um destes assuntos?
E.C.: São reflexões que se desenvolvem no contexto da vida cotidiana não de forma teórica, mas de forma humana. O desejo de vingança nasce do desamparo diante da perda de toda a família. O livre-arbítrio, sempre posto no contexto de fazer o que se quer, mas ter consciência das consequências, é a grande questão que se coloca. A dor e o ressentimento podem ser opções para uma decisão de vida? O perdão não aparece no sentido religioso ou algo moralmente esperado. Aparece como uma forma de romper ciclos e seguir. Não é sobre desculpar alguém. Certos acontecimentos não aceitam desculpas.
- Você também é autora do romance “Marias” (2025) e do livro infantil “O Rapto das Cores” (2025). Como o processo de construção de “Olho por Olho” se diferenciou das demais obras?
E.C.: Olho por Olho: ecos do imperdoável foi uma construção emocionalmente mais difícil do que os livros anteriores, os contos ou as poesias. Foi a primeira vez que me coloquei como alguém que sofre violência e que se utiliza dela para reparar – ou achar que repararia – o mal que lhe causaram. Chorei em algumas cenas, de dor ou de emoção, pelo que via acontecer. Mas Olho por Olho é também uma linda história de amor. É uma ficção que facilmente se parece com a vida de muita gente. As escolhas têm consequências. Precisamos saber escolher.
Sobre a autora: Eliane Cristina nasceu no Rio de Janeiro e é membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Mestre em Direito Público, a escritora também publicou os livros “Marias” (Editora Panóplia, 2025) e “O Rapto das Cores” (Editora Panóplia, 2025).
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