
O live-action de Moana é tão ruim assim?
Novo longa da Disney, que adapta a animação de 2016, chegou aos cinemas na última semana cercado por uma maré de críticas
Sempre que um novo live-action adaptado de animação é lançado, as mesmas discussões de sempre vêm à tona: “é igual à animação?”, “é diferente da animação?”, “live-action tem que ser igual à animação ou tem que trazer algo novo?”, “a Disney só quer ganhar dinheiro com esses filmes”, “live-actions são desnecessários”, entre muitas outras coisas. Evidentemente com Moana não seria diferente.
O novo longa da Disney já vinha enfrentando críticas desde seu anúncio, considerando que a animação foi lançada há menos de 10 anos e, portanto, a velha justificativa de “apresentar a história para um novo público” não ia colar aqui. Nada mudou com a divulgação de fotos dos bastidores e dos primeiros materiais de divulgação. Agora com o lançamento do filme — paralelamente ao que a própria obra faz com seu material de origem —, infelizmente continuamos sem nada de novo para acrescentar nessa discussão.

Diferente de live-actions como Aladdin, Cinderela e Lilo & Stitch, Moana segue exatamente sua história original. A jovem criada para ser a líder de seu povo na ilha de Motonui, mas que sonha em desbravar o oceano, impulsionada pela avó se vê em uma arriscada missão para achar o semideus Maui e devolver o coração da deusa Te Fiti antes que a escuridão do mundo destrua sua ilha. É, talvez, o live-action mais fiel que a Disney já fez até hoje.
Por isso não tem como dizer que o longa não tem uma boa história, já que a trama de Moana é uma das mais aclamadas da Disney e uma das mais bem-sucedidas da década de 2010. Quem for ao cinema sem se importar de ver a mesma coisa ou até mesmo com esse objetivo, provavelmente terá um bom momento de diversão. A história continua envolvente e as músicas de Lin-Manuel Miranda continuam emocionantes.

O problema de Moana, e que foi a base da grande maioria das críticas, refere-se ao visual do filme. A fotografia acinzentada e “sem vida” já era algo que incomodava desde os trailers e, tirando algumas sequências do primeiro ato, na ilha de Motonui, o longa segue essa irritante tendência de Hollywood em dessaturar seus filmes. Mas por incrível que pareça, este nem é o fator que mais chamou atenção negativamente.
A própria natureza de Moana, a animação, já indicava que uma grande parte do live-action necessitaria de CGI para funcionar. Porém, é inegável que faltou cuidado no “acabamento”. Por diversas vezes, a computação gráfica mais atrapalhou a obra, atraindo a atenção para sua artificialidade, removendo a suspensão de descrença e retirando o espectador da imersão. Algumas cenas são tão “cara de tela verde” que chegam a parecer amadoras, o que pesa ainda mais considerando que estamos falando de um estúdio bilionário e centenário.

Além disso, a negligência técnica acabou afetando a percepção sobre o elenco. Em diversos momentos, as perucas dos protagonistas chamavam mais atenção do que a própria atuação. No papel principal, Catherine Laga’aia entrega um trabalho competente, embora demonstre certa dificuldade em atingir a profundidade emocional exigida pela personagem em algumas cenas, algo que, contudo, não chega a comprometer o desenvolvimento da história. Por outro lado, a química com Dwayne Johnson, que retorna como Maui, funciona muito bem. Inclusive, a presença marcante do ator se consolida como um dos pontos fortes do longa, ainda que seu visual cause um estranhamento inicial.
A direção de Thomas Kail, responsável por espetáculos na Broadway como In the Heights e Hamilton, teve seus pontos fortes na adaptação de alguns momentos icônicos da animação, como a luta contra Te Kā e a sequência com o caranguejo Tamatoa. Porém, embora ricas visualmente, estas são algumas das cenas que mais parecem inteiramente animação, com alguns elementos humanos “colados por cima”. E a dependência do filme à linguagem do seu material de origem é o que traz de volta muitos dos questionamentos que permeiam este e outros live-actions, especialmente o “pra que?”.

Ignorando o fato de que todo filme, pelo menos de Hollywood, é feito para ganhar dinheiro, Moana de 2026 é mais um que vai seguir com o rótulo de “desnecessário”, ainda mais considerando a curtíssima janela entre animação e live-action. A ida ao cinema não vale a pena para quem estiver esperando alguma inovação, seja ela técnica ou narrativa, da mesma forma que quem vai assistir esperando apenas que a história original seja mantida, deve sair satisfeito.
Porém, é justamente essa ausência de impacto que incomoda. A principal questão aqui não é se o espectador vai ou não gostar de Moana live-action, mas sim a falta de substância para uma discussão interessante sobre a adaptação de animações para uma nova linguagem. Moana não acrescenta e não muda nada neste cenário. É uma obra que não instiga, que não deve ser marcante nem mesmo para quem gostar dela, que deve apenas chegar, fazer seus milhões ancorada na “nostalgia” (de dez anos atrás) e ser esquecida nos próximos meses ou até começarem a sair as notícias sobre o próximo live-action.
E, honestamente, Moana merecia mais.
Comentários