
Toy Story 5 reencontra a essência da franquia em uma jornada mais humana do que tecnológica
Novo longa da Pixar reinventa a saga sem deixar de lado o que a consagrou, provando a relevância da série mesmo 30 anos após sua estreia
É amplamente aceito pelos fãs que Toy Story tem uma trilogia perfeita. O primeiro filme não apenas revolucionou a história da animação como também apresentava uma forma narrativa diferente da que a Disney acostumou o público ocidental. O segundo expandiu esse universo mantendo seu carisma e essência, e o terceiro encerrou de forma brilhante a jornada com Andy. O quarto longa, menos consensual, deixou a impressão de ser desnecessário, ao prolongar um encerramento que já havia sido concluído com maestria. Por isso, inicialmente, o anúncio de Toy Story 5 foi recebido com certa desconfiança. Mas, muito diferente de seu antecessor, a continuação da história de Woody, Buzz, Jessie e companhia justifica completamente sua existência e reencontra aquilo que torna Toy Story tão especial para tanta gente.
Agora, os brinquedos precisam lidar com a era digital invadindo a rotina das crianças. Percebendo que a filha tem certa dificuldade para fazer amigos, os pais de Bonnie decidem presenteá-la com Lilypad, um tablet super tecnológico que muda a dinâmica do quarto e monopoliza a atenção da garota. Para não serem esquecidos ou descartados, os brinquedos precisam encontrar meios de se reconectar com sua criança. Enquanto Woody e Buzz ajudam com sua experiência, Jessie toma a frente da situação e bola um plano para que Bonnie não apenas volte a brincar, mas também consiga criar laços reais com outras crianças.

O arco narrativo de Toy Story 5 espelha bastante o primeiro filme, com um novo brinquedo chegando e tomando toda a atenção da criança, uma separação inesperada com o brinquedo preferido indo parar onde não devia e uma jornada de descoberta para os protagonistas. Apesar das semelhanças, o filme não se escora em suas tramas anteriores, conseguindo abordar novas camadas da relação entre crianças e seus brinquedos, bem como das crianças entre si. Entre todos os filmes de Toy Story, este é o que mais explora as relações entre os humanos, mesmo com os brinquedos guiando a narrativa.
E falando em guiar, agora quem assume a liderança dos brinquedos e o protagonismo do filme é Jessie. A vaqueira apresentada em Toy Story 2 exerce o papel que era de Woody, uma vez que o cowboy passou a viver com os brinquedos perdidos. Por conta de sua evolução ao longo da franquia, ver Jessie no centro da história não parece estranho ou forçado. Pelo contrário, por se tratar de outra criança, é natural que a forma de brincar e os brinquedos favoritos mudem. Com essa decisão, Toy Story 5 mostra que o sucesso da saga sempre se justificou muito mais pela profundidade, emoção e criatividade de suas histórias do que pelo carisma de Woody e Buzz, que, ainda assim, seguem intactos nesse filme.

O pano de fundo de Toy Story 5 é o papel que a tecnologia ocupa em nossas vidas e, principalmente, o impacto da dependência digital na infância. Bonnie, criativa e imaginativa, é uma das poucas crianças da sua idade que ainda se diverte com brinquedos, enquanto as demais já se entretêm com tablets. Ao perceber seu distanciamento, ela busca se adaptar a essa nova dinâmica, o que, ironicamente, acaba por intensificar seu isolamento e apatia.
Inicialmente, a narrativa parece superficial, com uma mera vilanização das tecnologias digitais, mas logo segue outro caminho ao discutir a toxicidade das redes, a busca pelo pertencimento, as adaptações impostas por mudanças externas e o poder das conexões humanas.
Além da tecnologia, Toy Story 5 propõe uma discussão mais madura sobre o papel dos brinquedos e como o ato de brincar influencia até mesmo após o crescimento. Isso ocorre porque as convicções de Jessie são postas à prova quando ela confronta seu passado e se depara com brinquedos tecnológicos considerados “obsoletos”, como o Amigo Rolinho, que ajuda no desfralde, Atlas, um mini GPS infantil, e Snappy, inspirado nas primeiras câmeras digitais. Tudo isso faz com que Jessie reviva traumas ligados ao abandono e adquira uma perspectiva sobre a relação entre crianças e brinquedos mais realista e coerente com a trajetória da franquia.

Com personagens novos muito bem trabalhados, Toy Story 5 acaba deixando de lado alguns dos mais antigos, o que pode incomodar um pouco quem já vai esperando ver os conhecidos e carismáticos brinquedos carregando boa parte do humor da franquia. Ainda assim, o diretor Andrew Stanton (Procurando Nemo) mostrou mais uma vez que consegue trabalhar boas dinâmicas entre personagens e amarrar uma linha narrativa que combina emoção, humor e identificação sem perder seu público-alvo de vista.
As escolhas visuais do diretor e da co-diretora McKenna Harris também surpreendem. Toy Story 5 é tecnicamente impecável, com sequências que chamam atenção pelo realismo (embora seja bem menos ultra realista que Toy Story 4) e que mostram a evolução tecnológica que já é uma das marcas registradas da Pixar. Porém, o longa abraça ainda mais o lúdico nos momentos que representam a imaginação das crianças na hora de brincar, recorrendo a um estilo diferente do que o estúdio costuma fazer, misturando o 3D com textura e elementos 2D e demonstrando que a Pixar está de olho na concorrência e nas inovações presentes em filmes como Homem-Aranha no Aranhaverso e Guerreiras do K-Pop.

Em resumo, podemos dizer que Toy Story 5 reencontrou a essência da saga e mostrou que ainda tem muito a se contar. O filme consegue driblar o desgaste natural que uma franquia de 30 anos traz consigo, por mais rica e envolvente que seja. Embora falte ousadia em sua resolução, como se houvesse um medo de causar desconforto, o filme tem o potencial de levantar discussões importantes sobre a infância e mundo virtual e até mesmo o papel da educação nisso tudo.
Porque em teoria, brinquedos tecnológicos, sejam eles de última geração ou obsoletos, ainda possuem valor pedagógico e podem somar à vivência infantil.. Com Lilypad não é diferente. E apesar da dependência digital trazer consequências negativas em qualquer idade, talvez vilanizar a tecnologia ou se abster dela não seja o melhor caminho. O filme acerta em não demonizar totalmente o mundo digital e, em vez disso, propor que nada substitui conexões reais, mas que as tecnologias podem tanto enfraquecer as relações humanas quanto fortalecê-las, dependendo de nossa atitude em relação a elas e, principalmente, do cuidado em relação ao seu uso por crianças.
Toy Story 5 já está em cartaz nos cinemas brasileiros.
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