
“A História do Som” guarda paixões que o tempo não leva | Crítica
Você já parou para pensar nas diferentes formas de reviver uma paixão antiga? Pode ser por um presente esquecido no fundo da gaveta, uma fotografia emoldurada na estante ou até aquele perfume específico que, de repente, atravessa o ar e traz tudo de volta. É exatamente o que o filme “A História do Som” traz como reflexão. O tempo passa, mas o que foi sentido permanece, à espera de um estímulo para ressurgir. É como a melodia de uma música que mesmo composta em um determinado momento, ela pode ser ouvida décadas depois e ainda soar intacta.
Nele encontramos dois dos atores mais interessantes de sua geração, Paul Mescal (Todos Nós Desconhecidos) e Josh O’Connor (Rivais). Reconhecidos por performances marcadas pela densidade emocional, eles transitam com naturalidade entre o cinema autoral e produções de grande visibilidade. Aqui, esse encontro resulta em uma narrativa conduzida por silêncios, gestos contidos e uma química que não precisa de explosões para se afirmar.
Ambientado em 1917, o filme começa com uma narração em off que já estabelece o tom, nos dizendo que estamos diante de uma história contada como memória, como eco. Lionel (Mescal) é um jovem de origem simples que ganha uma bolsa de estudos para o Conservatório de Boston. Desde cedo, ele demonstra um dom raro: consegue “ver” as notas musicais.

Os sons se transformam em cores, em formas, em sensações visuais. É quase uma condição sensorial que molda sua forma de perceber o mundo.
É em um ambiente acadêmico que ele conhece David (O’Connor). O primeiro contato entre os dois em “A História do Som” acontece graças à música. O que os aproxima é uma canção. Um comentário sobre melodia. Um olhar trocado após uma apresentação. A conexão nasce de maneira orgânica, como se a música tivesse feito as apresentações antes mesmo que as palavras fossem necessárias.
Ambos compartilham o interesse pela música folk norte-americana, principalmente aquelas canções tradicionais ameaçadas pelo esquecimento. Anos depois, já mais maduros e com o mundo transformado pela guerra, eles embarcam em uma jornada pelo interior do Maine para registrar diferentes canções, viajando por vilarejos e fazendas, gravando vozes e histórias que carregam a memória de gerações.
Mas reduzir “A História do Som” a um filme de pesquisa musical seria simplificá-lo demais. Trata-se de um romance para todas as épocas. E antes que os amantes da nova onda de produções LGBT+ apareçam, é bom deixar um aviso: este não é um filme sexual, é um filme romântico.
A paixão aqui não é construída a partir do desejo explícito, mas da admiração e da parceria. Um cria a letra, o outro transforma aquilo em som. Um compõe, o outro interpreta cantando. Juntos, parecem formar uma obra que individualmente não existiria.
O filme trabalha a ideia de que eles são o complemento um do outro. A música é o elo, mas também é metáfora. Ela representa aquilo que sentimos e nem sempre conseguimos dizer, como dores, memórias, medos, desejos.
A narrativa se constrói sobre encontros e desencontros. Em determinado momento, “A História do som” afasta os personagens e distância o protagonista do amado, fazendo com que Lionel retorne à fazenda onde nasceu. Curiosamente, o filme mostra essas despedidas com uma serenidade quase dolorosa. Ele perde entes queridos, mas nunca cogita perder aquele que ama.

É interessante perceber como o longa opta por uma abordagem contida do drama. Durante boa parte da projeção, ficamos esperando que o grande conflito aconteça. Que venha a ruptura definitiva, a tragédia irreparável. Mas isso não acontece.
O sentimento predominante enquanto assistimos “A História do Som” não é revolta, e sim conformismo. Assistimos à vida de Lionel se desenrolar e aceitamos o que aparece em tela, talvez porque o próprio personagem pareça aceitar. O que dá a entender é que ele está vivendo exatamente o que quer viver. Não há grandes conflitos internos em primeiro plano, apenas escolhas que parecem inevitáveis.
Esse, talvez, seja um dos pontos em que o filme peca. A contextualização do protagonista, algumas vezes, soa vaga. Por que ele reage com tanta serenidade diante de certas perdas? O que realmente o impulsiona a se afastar? Há lacunas que poderiam ter sido exploradas com mais densidade.
Ainda assim, quando Lionel e David finalmente se reencontram, a química entre Mescal e O’Connor compensa qualquer fragilidade estrutural.
E é aqui que o filme encontra sua grande força temática, caracterizando o som como marca temporal. Independentemente da época, ele pode ser reproduzido. Pode atravessar décadas, séculos, e ainda assim provocar uma reação física, um arrepio, uma memória involuntária. O mesmo acontece com a paixão. Ela pode não estar mais presente no cotidiano, mas permanece na lembrança, pronta para ser revivida ao menor estímulo.
No fim, “A História do Som” não é um filme de grandes reviravoltas, mas de permanências. É sobre como certas pessoas entram em nossa vida e, mesmo quando se vão, continuam reverberando dentro de nós. Assim como uma canção antiga que alguém gravou em 1917 e que, décadas depois, ainda consegue nos emocionar.
Nota: 3/5
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