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Jane The Virgin: Uma série para noveleiros

Inspirada na telenovela venezuelana Juana la Virgen, a série Jane The Virgin abraça o legado das telenovelas latinas

É seguro dizer que a América Latina é o berço das telenovelas. Aqui no Brasil, onde chamamos apenas de novelas, é cultural acompanhar as teledramaturgias, algo que vem sendo feito por muitas gerações. Esse legado é inegável, e já foi provado várias vezes que assistir novelas é muito mais que um hábito, é quase um vício. Um exemplo disso foi na estreia do último capítulo de Avenida Brasil, em 2012, onde o país literalmente parou pra assistir.

E essa é uma paixão que compartilhamos com nossos vizinhos continentais da América Latina. Países como Venezuela e México, por exemplo, tem grandes produções da teledramaturgia que nós mesmos conhecemos, como é o caso de A Usurpadora, famosa novela mexicana que fez muito sucesso aqui no Brasil.

Sendo assim, uma série que segue a mesma estrutura das telenovelas estava designada a ser um sucesso, foi assim que surgiu Jane The Virgin. A série estreou em outubro de 2014, teve 5 temporadas e está disponível na Netflix.

O diferencial da série, que cativou o coração de muitos, é que ela acompanha o formato das telenovelas, que possuem características específicas: Episódios de cerca de 45 minutos, combinação de drama, suspense, romance e dilemas sociais, “exagero” de acontecimentos pouco realistas, pares românticos enfrentando milhares de obstáculos e, é claro, vilãs icônicas e heroínas memoráveis.

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Jane The Virgin / Reprodução

Nas séries de tv que conhecemos, é possível identificar alguns desses fatores, mas poucas conseguem trazer toda a essência de uma telenovela como Jane The Virgin.

A história acompanha Jane Gloriana Villanueva (Gina Rodriguez), uma jovem escritora e garçonete que mora com sua avô, Alba Gloriana Villanueva (Ivonne Coll) e sua mãe, Xiomara Gloriana Villanueva (Andrea Navedo). Alba e Xiomara são dois extremos opostos: Enquanto Alba é bastante religiosa e conservadora, Xiomara é mais liberal, abraça sua sexualidade e é uma mulher bastante livre.

Jane, por ter a avó como referência de valores morais, é virgem e pretende permanecer assim até o casamento. Esse é um ponto importante, já que após ser inseminada artificialmente por acidente pela sua ginecologista, ela fica grávida. Virgem e grávida. E isso são só os primeiros minutos do primeiro episódio.

A trama também acompanha Michael Cordero (Brett Dier), detetive e noivo de Jane; Rafael Solano (Justin Baldoni), pai do bebê de Jan; Petra Solano (Yael Grobglas), primeira esposa de Rafael e, também, primeira vilã da história; Luisa Solano (Yara Martinez), irmã de Rafael e médica que inseminou Jane artificalmente; Rose (Bridget Regan) madrasta de Rafael e Luisa, amante de Luisa e chefe de uma organização criminosa; e Rogelio de La Vega (Jaime Camil), pai de Jane.

Durante os 100 episódios da série, que são divididos em capítulos e narrados, o nível de eventos completamente improváveis só aumenta, envolvendo triângulos amorosos, inseminação artificial caseira, morte, tráfico, cirurgias plásticas e muito mais.

A série consegue abordar tudo isso enquanto fala sobre tópicos importantes e relevantes, como imigração nos Estados Unidos, tipos diferentes de família, conservadorismo e religião, relações parentais, câncer e diversos outros. Parece muita coisa, e é difícil acreditar que a série consegue fazer isso tudo fazer sentido e ficar bom, mas, acredite: essa loucura toda é o que torna Jane The Virgin uma série única e muito especial.

Com toda essa diversificação de tópicos em um só plot, eu não conseguiria expressar todos os meus comentários em uma só resenha, e eu acredito fielmente que todo mundo deveria assistir essa série. Então, ao invés de tentar comentar tudo, eu vou falar sobre os momentos principais que eu acho que merecem atenção na série. Então, aqui vai:

Imigração e diálogo bilingue

A série se passa em Miami, nos Estados Unidos, mas acompanha uma família de imigrantes. Alba e Mateo, avós de Jane, imigraram da Venezuela para os Estados Unidos em busca de dar uma vida melhor aos futuros filhos. Por terem nascido em solo americano, Xiomara e Jane já eram cidadãs americanas, diferente de Alba.

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Alba Villanueva / Reprodução

O tópico da imigração ilegal é recorrente na trama, incluindo também o aumento da pressão da deportação após a eleição de Trump, em 2016. Nós apanhamos Alba em sua jornada na emissão de seu green card (que felizmente dá certo) e toda a agonia e ansiedade que esse processo envolve, já que existe o medo de uma possível deportação.

Além de Alba, também temos Jorge, que vem a ser o segundo marido dela. Jorge, mesmo morando a anos nos Estados Unidos, também é um imigrante não documentado que acaba se casando com Alba para evitar sua deportação.

E não são somente os Villanueva que constituem a parte estrangeira do elenco. Petra, primeira esposa de Rafael, sua mãe Magda e sua irmã Aneska são da República Tcheca. Além disso, o próprio Rafael também descobre que tem origem italiana. E todos esses personagens possuem traços que demonstram sua essência cultural do país de origem, seja em detalhes sutís, como o interesse de Petra por picles tcheco e o de Jane por arepas, ou pela forte presença dos idiomas na série, que possui diversos diálogos em tcheco e, especialmente, em espanhol.

Diversidade LGBTQ+, especialmente sáfica

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Luisa e Rose / Reprodução

Um grande acerto de Jane The Virgin é a presença de personagens LGBTQ+ de forma muito orgânica e natural. Começando por Luisa, irmã de Rafael e médica que inseminou Jane. Luisa é retratada como lésbica desde o começo da série, e aparece se relacionando com diversas mulheres. Uma delas é Rose, sua madrasta que também é a chefe de um sistema que faz cirurgias plásticas em criminosos para mudar a aparência deles totalmente e ajudá-los a fugir da polícia.

O romance de Rose e Luisa se estende durante toda a série, e em nenhum momento a sexualidade delas é objetificada ou retratada de forma caricata ou desrespeitosa. O relacionamento está longe de ser saudável, mas é natural, como os demais casais da série.

Além delas, temos também Petra, que explora sua bissexualidade nas últimas temporadas da série. Petra se relaciona com vários homens no decorrer da trama, Rafael, Milos e Lachlan sendo os principais. Porém, na quarta temporada, ela conhece Jane Ramos, sua advogada, e se apaixona profundamente por ela. Juntas, elas encontram diversos obstáculos mas, para a felicidade de todos, ficam juntas no final.

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Petra e JR / Reprodução

A bissexualidade de Petra, por mais que surpreendente, não parece forçada e não é sexualizada ou caricaturada. Ela vive um romance intenso e real, o que faz com que a gente torça pela felicidade das duas.

Outros personagens secundários e terciários, como Krishna, recepcionista de Petra; Marlene, mentora de Jane; o casal de rapazes para o qual Rafael vende sua primeira casa enquanto corretor de imóveis, dentre outros, também são inseridos na narrativa organicamente, normalizando a presença de pessoas LGBTQ+ na história.

O diferencial dessa abordagem é que nenhum desses personagens tem sua sexualidade como ponto focal. Nenhum deles é lembrado apenas por isso, porque todos tem histórias mais profundas, muitos detalhes e muito desenvolvimento.

Por exemplo: Luísa não é a irmã lésbica de Rafael, ela é a médica que insemina Jane por acidente, que batalha contra o alcoolismo e que vive um romance proibido com sua madrasta. Rose, por sua vez, não é a namorada lésbica de Luisa, ela é uma chefona do crime. Petra não é a ex-esposa bissexual de Rafael, ela é uma vilã no começo da história que se redime e se torna uma das melhores pessoas da história.

Essa atenção em dar histórias para esses personagens ao invés de caracterizá-los apenas pela sexualidade é uma questão recorrente no mundo do entretenimento, e é uma felicidade ver isso sendo bem-feito em Jane The Virgin.

Petra e o seu desenvolvimento como personagem

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Petra Solano / Reprodução

Petra Solano é uma personagem tão complexa que dá pra desenvolver teses científicas sobre ela. Ela que começa como a vilã da história (a esposa malvada de Rafael que quer impedir que ele fique com Jan), acaba se tornando uma das personagens mais interessantes da série, e a favorita de muitos.

No começo da série, a paixão de Petra por Rafael acaba fazendo com que ela sabote muita coisa, inclusive ela mesma, na tentativa de fazer com que ele fique com ela e não termine o casamento dos dois, que já está aos pedaços. Uma dessas sabotagens, talvez a principal delas, é quando Petra se insemina artificialmente em casa com o esperma de Rafael para engravidar dele e tentar salvar seu casamento. Claro que não funciona. Petra, então, gera duas crianças gêmeas. O nascimento dessas crianças traz à tona um outro problema de Petra: sua relação com a maternidade.

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Sua mãe, Magda, é uma mulher abusiva, assassina e sem muitos sentimentos pela filha. Isso reflete na forma que Petra cria suas filhas, principalmente no fato de que ela leva muito tempo para conseguir vê-las como filhas e começar a amá-las realmente. Depois de passar por uma depressão pós-parto, Petra começa, aos poucos, a se conectar com as filhas e, depois de muito desenvolvimento, se transforma em uma ótima mãe, algo que não dá pra esperar dela nas primeiras temporadas.

Além de se tornar uma boa mãe, ela começa a se tornar uma boa pessoa. No início da série, Petra e Rafael tem o costume de utilizar de meios ilegais para conseguir o que queriam e passar por cima das pessoas em prol de seus objetivos pessoais. Por influência de Jane (Ramos e Villanueva), que vem a se tornar a base moral dos dois, Petra acaba por se transformar em uma mulher mais justa e, surpreendente, uma das melhores amigas de Jane.

A amizade de Petra e Jane é uma das melhores surpresas da série. A forma como elas começam a se entender aos poucos e a conviver melhor, a princípio em prol dos filhos, é tão natural que, quando você se dá conta, elas já se tornaram o braço direito uma da outra, se apoiando em momentos difíceis e convivendo como irmãs.

Petra é, com certeza, a personagem que melhor se desenvolve na série. Ela se torna uma pessoa completamente diferente, sem perder sua essência, sendo assim, um ótimo exemplo de personagem bem escrita.

Semiótica e narração: A telenovela dentro da telenovela

É visível que Jane The Virgin é uma série inspirada em telenovelas, porém, a própria série tem consciência disso. Por ser narrada, constantemente somos lembrados que os eventos completamente aleatórios e pouco realistas que acontecem são “coisa de novela” (straight out of a telenovela, right?), o próprio narrador nos lembra disso constantemente.

Os escritores de Jane The Virgin utilizam de vários paralelos interessantes para estabelecer esses paralelos. Um dos meus favoritos é a forma como, ao cortar de uma cena para outra, geralmente a fala do personagem da cena seguinte representa o pensamento do personagem da cena que está acabando, mesmo em cenários e pontos diferentes da história, tudo se conecta. É muito inteligente e interessante.

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Anthony Mendez: O narrador / Reprodução

Um diferencial de Jane The Virgin como série é a narração. A série inteira é narrada pelo talentosíssimo Anthony Mendes. A experiência de assistir a série se torna algo único com a narração, pois o narrador conversa com a audiência de forma a transportar-nos para dentro da história, como observadores da vida de Jane e todos os que a rodeiam. Sem contar, é claro, que ele transmite emoção e informações nos meios dos episódios, não só narrando, como fazendo os próprios comentários. Ele é um dos principais personagens da série, e o favorito de muitos.

Um ponto interessante sobre ele é que, no último episódio, é revelado que o narrador é, na verdade, Mateo, o filho de Jane e Rafael. Alguns fãs já desconfiavam disso, baseado em alguns comentários do narrador durante a série, mas a revelação é um detalhe emocionante no final, pois o narrador sempre fala dos principais personagens com muito carinho, especialmente sobre Jane, Alba e Xiomara, e saber que, no final, é Mateo falando conosco esse tempo todo, é no mínimo emocionante.

O relacionamento de Jane, Alba e Xiomara

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Xiomara, Jane, Alba e Mateo / Reprodução

Muitos acreditam que Jane The Virgin é uma série sobre os relacionamentos amorosos de Jane. Mas, conforme os episódios vão passando, fica cada vez mais claro que, na verdade, a série é sobre outro tipo de amor.

O relacionamento central da série é o amor fraterno entre Xiomara, Alba e Jane, três gerações de mulheres da mesma família. Durante toda a trama, fica muito claro que a mãe e a avó são as fortalezas de Jane, a quem ela recorre para tudo. As três, porém, divergem em muitos pensamentos, o que causa conflitos, principalmente entre Xiomara e Jane e Xiomara e Alba.

A mãe de Jane é uma personagem retratada como irresponsável em boa parte da série. Ela é vista como promíscua e imatura, especialmente por Jane e Alba, que a amam, mas não concordam com muitas de suas escolhas. Xiomara, porém, é um exemplo de mãe para Jane. Mesmo tendo engravidado jovem, ela aparece em diversos momentos protegendo e defendendo a filha, e Jane só percebe isso mais tarde.

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Xiomara, Jane, Alba/ Reprodução

As cenas das 3 no balanço na casa de Alba são recorrentes durante a série, e os momentos em que as três compartilham hábitos, conhecimentos e costumes, especialmente como mães, mostram que, na verdade, a série é sobre elas três.

Como elas encontraram amor e como elas enfrentam os desafios da vida juntas. É muito bonito ver a retratação desse relacionamento que é uma das partes mais realistas da série. Os fãs da América Latina identificaram em Alba e Xiomara suas próprias mães e avós, e a forma como as três foram construídas enquanto personagens é bastante real, que contrasta com toda a loucura do resto da série.

E esse é outro ponto em que Jane The Virgin acerta: equilibrar os momentos sérios com o restante cômico. Isso fica muito claro quando fala-se especialmente de doenças. O câncer de Xiomara e a depressão de Rafael, por exemplo, não são caricatos, pelo contrário. São os momentos da série em que a realidade nos pega de surpresa, e com certeza nos surpreende mais que todas as outras situações completamente malucas que constituem a história.

Existem diversos outros fatores que fazem de Jane The Virgin uma série sensacional, com tantas reviravoltas em 100 episódios, muita coisa acontece. Porém, para captar todos os detalhes, é necessário assistir a série. Se você é um fã de novelas, comédia romântica ou romances, mulheres fortes em papeis importantes e muito drama, você vai gostar de Jane The Virgin.

É uma série que inova, mesmo sendo familiar para nós que assistimos novelas a vida toda. Você se apega rápido aos personagens, até aos vilãos, e consegue ser transportado para a realidade maluca que é a vida de Jane. Com tantos personagens e histórias, você vai se identificar pelo menos com um deles, se não com todos.

É uma ótima série, única pelo seu formato e estrutura e com certeza um prato cheio para os fãs de novela, ou não. Jane The Virgin vai te mostrar como a vida é maluca, mas cheia de boas histórias!

Texto por Thais Moreira


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