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“Eu sou sua fã N° 1!”: O fanatismo retratado em Misery, de Stephen King

Uma das mais notórias histórias do mestre do terror moderno, Stephen King trás em Misery o retrato de um dos maiores medos de quem alcança a fama.

Não é surpresa pra ninguém que Stephen King é um dos maiores autores desse século. Afinal, ele não seria conhecido como o mestre do terror moderno à toa, e é difícil encontrar alguém que não conhece nenhum dos seus trabalhos. Ora, ele nos deu clássicos da literatura que vieram para o cinema no mundo todo! Quem não leu os livros Carrie, Cemitério Maldito, O Iluminado ou It, com certeza assistiu os filmes. Mas hoje, vamos falar de um de seus livros que, as vezes, é esquecido, mas possui um enorme potencial e, se colocarmos no cenário dos dias de hoje, vira uma grande indireta sobre fanatismo. Claro que estamos falando de Misery: Louca Obsessão.

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Misery – Stephen King

Misery: Louca Obsessão é um livro de King lançado em junho de 1987. O livro conta a história de Paul Sheldon, um escritor que, após sofrer um acidente de carro que o deixa ferido, tem a “sorte” de ser resgatado por Annie Wilkes, um ex-enfermeira que o leva para sua casa e “cuida” dele. Paul descobre muito cedo que, na verdade, não foi muita sorte ser resgatado do local de seu acidente.

Annie Wilkes é o retrato completo do vilão de história de terror de King. Ele costuma montar seus “vilões” de forma muito real (exceto quando eles são sobrenaturais, como é o caso do Pennywise, por exemplo). Quando chamo seus vilões de reais, quero dizer que, se você parar pra pensar, é muito provável que você conheça, ou já tenha ouvido falar de alguém como Annie Wilkes na vida real.

A pessoa que tinha uma carreira, vem de um lar conturbado, é desequilibrada e acaba cometendo algum tipo de ação subversiva como decorrência do trauma e/ou de algum problema psicológico. Annie não é irreal, pelo contrário, dá pra colocar ela na pele de muitos assassinos e torturadores que viveram. E isso é algo que você sente no livro.

Um pouco sobre a personagem: Annie trabalhou como enfermeira por um tempo até começar a cometer alguns crimes na função. E com crimes que quero dizer que ela matava pessoas, bebês, mais especificamente. E ela não matou somente pacientes, antes de começar a trabalhar como enfermeira, ela causou a morte de uma família inteira. Além disso, ela não fala nenhum tipo de palavrão e tem reações severas à profanidades, como ela mesma diz. E, infelizmente para Paul, ela é fã número 1 dele.

Isso deveria ser um fator positivo, certo? Se ela é fã dele, ela não vai fazer mal a ele, certo? Errado! Um fator importante pra história é que Annie é fanática pela série de livros escrita por Paul: Misery. A série de livros conta a história de Misery Chastain, uma mulher com características de heroína, que vive romances envolventes o suficiente para que grupos e mais grupos de pessoas projetem nela a vida que nunca terão e fiquem obcecados, como Annie.

Infelizmente para ela, Paul mata Misery no último livro da coletânea, e é claro que ela não fica feliz. Ninguém ficaria, todos nós já passamos por esse momento de ver um personagem que amamos morrer, então talvez você sinta certa simpatia por Annie nessa parte. Essa simpatia não vai durar muito, aliás.

Não demora até Annie começar a torturar Paul, desde fazer ele beber água suja, até mutilar seu pé e dedos. Ela, enfermeira, “trata” das feridas do acidente dele com remédios que ela tem em casa, o que faz com que ele desenvolva um vício. Além disso, ela só o alimenta quando bem entende e o força a escrever um novo livro de Misery, revivendo sua amada protagonista.

Stephen King diz que escreveu Misery como uma representação do medo que ele sentia dos próprios fãs. E quem pode culpa-lo? Existem exemplos claríssimos de momentos em que o fanatismo passa a barreira da admiração e se torna obsessão. Nos piores dos casos, os fãs tiram a vida dos artistas, como aconteceu com John Lennon e Selena Quintanilla, que foi assassinada pela líder de seu fã-clube.

O próprio Stephen King já teve seu notório caso de stalker, mais de um, na verdade. Desde uma senhora, vizinha dele, tentando convencer a imprensa de que King escreveu O Iluminado no porão da casa dela, até um convicto stalker que estava disposto a provar que, pasmem, Stephen King foi o verdadeiro assassino de John Lennon. Pois é, esse stalker, chamado Steven Lightfoot, não satisfeito com as alegações, estava disposto a provar sua teoria. Ele personalizou uma van inteira e ficou acampado na frente da casa de Stephen King. Em troca, ele ganhou uma medida protetiva pra ficar longe de King, obviamente.

Apesar de Misery possuir muitos elementos muito bem elaborados pra causar desconforto, não é difícil encontrar certa verdade nas ações de Annie Wilkes. Hoje em dia, nós temos muito mais acessos e recursos para estamos “perto” de nossos ídolos. Perto até demais. Na internet, você encontra qualquer endereço com muita facilidade, com paparazzi e canais de fofoca, você fica sabendo onde o artista está, com quem e fazendo o que. A privacidade das ditas celebridades é cada dia mais relativa e menos presente, já que, com a era da internet, é mais fácil do que nunca perseguir um artista. E existem muitos fãs com disposição para tal.

Usando como exemplo aleatório os fandoms de kpop. Acredito que hoje em dia não exista nenhum outro grupo de fãs mais engajado, disponível e empenhado do que os fãs de kpop. E isso, no geral, é positivo. Pro artista, que se beneficia com visualizações, streams, venda de merchandising, etc. E para as fãs, que encontram algum senso de comunidade ao se unir em prol do mesmo artista. Porém, nem tudo são flores, não é mesmo?

Dentro do mundo do kpop, existem as famosas sasaengs. Por definição, as sasaengs são fãs obsessivas, sem limites, que perseguem, invadem a privacidade e, muitas vezes, ameaçam a segurança de seus ídolos. Existem casos notórios onde elas invadem hotéis e roubam roupas íntimas dos artistas e outros onde, durante perseguições, elas causam acidentem que comprometem a segurança dos idols. A diferença delas para a Annie Wilkes é a oportunidade. Quem sabe o que elas fariam se tivessem a oportunidade de manter o ídolo ferido e preso em suas casas? Reflitam sobre.

Misery ganhou filme em março de 1992, que rendeu à Kathy Bates, no papel de Annie Wilkes, o Oscar de melhor atriz e o Globo de Ouro de Melhor Atriz em filme dramático. Vale a pena assistir, mas leia o livro antes.

Sendo assim, é possível afirmar facilmente que Stephen King conseguiu retratar nesse livro um dos maiores medos que vem com o sucesso: E se alguém estiver tão louvo por você, a ponto de cortar fora o seu pé? Misery é envolvente de um jeito que faz você sentir a agonia dos personagens, um livro que você quer ler do começo ao fim direto, pra saber o que acontece no final. Mas até aí, quando foi que Stephen King nos decepcionou quando o assunto é um bom terror?


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