Elis Regina

Hoje (17), data em que Elis Regina faria 76 anos, a Universal Music lança LP, CD e álbum digital “ELIS (1972)”, além do lyric video de “Casa no Campo”, um de seus grandes sucessos

Elis 1972,  com nova mixagem dirigida por João Marcello Bôscoli, remasterizado por Carlos Freitas e relançado em vinil, CD e álbum digital por sua gravadora original, a Philips – atualmente Universal Music – , quase 50 anos depois de sua gravação, mostra o quanto há por se descobrir sobre o “som de Cesar” e as sutilezas de Elis Regina

Elis Regina já era Elis quando, sempre a única mulher entre muitos homens, entrou naquele estúdio da Philips, em 1972, esperando o sinal para cantar “20 anos blue”. Ela já havia deixado em Porto Alegre quatro álbuns dos quais não se orgulhava e uma vida simples de menina prodígio no condomínio popular da Vila do IAPI. Ao chegar ao Rio, em 1964, embriagou-se do samba jazz no Beco das Garrafas até encontrar sua voz e sua turma no disco “Samba, Eu Canto Assim!” Um ano depois, em São Paulo, entregava-se ao Zimbo Trio e a Jair Rodrigues, vencia o I Festival de Música Popular Brasileira na Excelsior com “Arrastão” e apresentava um programa de TV líder de audiência na Record. Elis já havia cantado no Olympia de Paris, brigado com a Jovem Guarda e a guitarra elétrica, gravado Roberto Carlos com guitarra elétrica, lançado Milton Nascimento, casado-se com Ronaldo Bôscoli, trazido João Marcello ao mundo e separado de Ronaldo Bôscoli. “Gravando!” Ali, naquele estúdio, todos os pedaços de vida e de memória se juntavam para criar uma nova e definitiva Elis.

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Universal Music: Elis Regina

Se fosse apenas sobre música, o LP de 1972, Elis ou apenas o “Álbum da Cadeira”, já seria um dos registros mais excepcionais da MPB pela interpretação e pelo poder de sua sequência de canções. Mas, como tudo em Elis, nunca é apenas sobre música. Ao ser relançado em vinil, CD e álbum digital com os luxos de uma nova mixagem e masterização, além de um lyric video da canção “Casa no campo”, as doze faixas revelam-se logo uma desforra emocional apaixonada e incessante deflagrada pela voz vida de Elis – “não é a voz que canta“, ela dizia – e pela textura de suavidade seca criada pelo pianista Cesar Camargo Mariano a partir daquele instante. O “som de Cesar” não vinha sobrepor-se à voz com solos e explosões, mesmo sendo produzido por uma gente que poderia fazer apenas isso se quisesse, nem se subjugar como um coadjuvante de diva. Ele vinha no ponto. Qual ponto? O ponto de Elis. Cesar entendeu logo que quem conduziria todos naquele estúdio seria a voz, e não o contrário.

Ao ouvirmos Elis e suas primeiras gravações ao lado do Quarteto Fantástico, formado por Cesar, Luisão Maia (baixo) Hélio Delmiro (guitarra) e Paulo Braga (bateria), em um LP com direção artística de João Marcelo Bôscoli, com o engenheiro de som Luiz Paulo Serafim –  quase 50 anos depois das gravações originais por alguém que saiu de seu ventre, João Marcello Bôscoli, nada fica muito parecido com um relançamento convencional. É mais do que isso, e principalmente por tudo que ainda há escondido nas sutilezas de um álbum feito em detalhes captados por quatro canais. Coisas do vinil: o contrabaixo sólido de Luisão Maia cola-se ao bumbo de Paulinho Braga e potencializa os dois mesmo nos volumes mais baixos enquanto o pensamento da guitarra jazz de Hélio Delmiro o faz suingar nas frestas deixadas pelo piano de Cesar. A vassourinha raspa a pele da caixa de Paulo Braga em “20 anos blue” e nos leva a um clube de jazz esfumaçado dos anos 50. As fisgadas da guitarra de Hélio bem ao fundo de “Bala com bala” faz a estrutura frenética de baixo, voz e bateria balançar ainda mais. A entrada dos violinos em “Águas de março” no instante em que Elis canta “é uma ave no céu” exerce o intrigante poder da própria levitação. E o piano elétrico RMI de Cesar em “Casa no campo”, o mesmo que, em 1974, assustaria Tom Jobim antes que ele relaxasse para deixar rolar a gravação de “Elis & Tom“, ajuda a criar uma canção rural psicodélica.

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Houve uma tarde, depois de que tudo estava gravado e o disco feito, em que o produtor Roberto Menescal chamou Elis para escutarem o álbum juntos pela primeira vez. Ouviram em silêncio o lado A deixando o LP falar por inteiro para perceberem a força do todo: “20 Anos blue”, “Bala com bala”, “Nada será como antes”, “Mucuripe”, “Olhos abertos” e “Vida de bailarina”. Assim que a agulha deslizou no vazio, Menescal levantou-se para virar o disco sem dizer nada. Vieram “Águas de março”, “Atrás da porta”, “Cais”, “Me deixa em paz”, “Casa no campo” e “Boa noite amor”. Ao final, Elis fez uma pausa de alguns segundos, olhou para o produtor e disse sobre todas as músicas que Menescal havia levado para aquele álbum: “Cara, eu sou foda escolhendo repertório“.

Cinquenta anos depois, talvez seja a hora de entender o que Elis quis dizer. Não importava muito como as músicas chegavam. Ao final, era sempre sua, e a partir daquele instante, de seu Quarteto Fantástico, a escolha de dar a cada uma o sopro da vida eterna.


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