Irmandade - Nerd Recomenda

A construção do imaginário social em Irmandade e When They See Us 

A relação das séries com as ações racistas da vida  

Irmandade e When They See Us, apesar de trazerem protagonistas negros, causam efeitos diferentes quando assistidos por nós, pessoas negras e atentas à semiótica da coisa. 

Irmandade e When They See Us: A construção do imaginário social 
Arte: Yasmin Ialuny

Desta vez, como linha central, usaremos a relação da construção do imaginário coletivo (ou social) a partir destas obras audiovisuais e como elas resultam nos casos nada raros, como a morte de George Floyd, Mariele Franco, Ágatha Félix e tantas outras vítimas que, se não fatais, tiveram suas vidas interferidas por um acontecimento violento, tal como no caso Os Cinco do Parque – que falaremos logo mais. 

A minissérie Irmandade, uma produção brasileira, conta a história de uma “suposta facção criminosa” que nasce dentro de um presídio paulista e tem seu comando inicial estabelecido ali. Como personagem central, temos Édson Ferreira (Seu Jorge), líder da facção, um homem negro casado com uma mulher fora da cadeia, que é o seu elo com o mundo externo. Além da esposa, há sua irmã (vivida por Naruna Costa) que é advogada e se envolve no desenvolvimento dessa facção. 

Tá, mas aí você pede protagonismo negro e reclama quando o consegue? Sim!! 

A questão aqui (e sempre) é mais do que ser a principal história contada. É sobre QUAIS histórias têm sido contadas e quais os impactos disso na vida das pessoas negras. Acompanhem. 

Enquanto isso, a série de Ava Duvernay, When They See Us (no Brasil conhecida como Olhos que Condenam), é a história documental de cinco meninos negros que são presos e condenados jurídico e socialmente pela acusação de estupro de uma mulher branca no Central Park, no Estados Unidos em 1989. 

Sendo uma ficção inspirada em fatos reais como na Irmandade ou totalmente documental como na história de Ava, surgem diversos questionamentos, dos quais destaco apenas um -e na minha concepção, um dos pilares dos problemas da nossa sociedade-: Quais são as atribuições de um homem negro? e as respostas para essa pergunta é consequência do que chamamos de imaginário social. De outra maneira: feche os olhos e pense em um homem negro, pense na sua vida, como se veste, o que come, quais lugares frequenta e o trabalho que ele tem. Pronto, isso é o imaginário social ou coletivo, seja lá como o chamem. 

O modo como imaginamos alguém também é o modo como reagimos quando somos confrontados pelos acontecimentos da realidade. Por exemplo, acreditar que um homem negro não possa ser médico, engenheiro, dono de uma grande empresa e, pior do que isso, quando até “acredita-se” mas não oferece as condições mínimas para que essas pessoas pretas, no caso do exemplo, este homem, alcance um lugar mais confortável e/ou ouso sonhar, de luxo, como algo normal. 

Observe que é um ciclo que precisa ser rompido: o imaginário social constrói produtos como Irmandade, que estereotipam homens negros, ao mesmo tempo que tantas outras obras colocam sempre pessoas negras como marginais, pobres e outros perfis que não correspondem unicamente a realidade desses indivíduos. Com isso, reafirmam em pessoas negras e, principalmente nas pessoas brancas, o conjunto de símbolos e ideais de que é só isso que negros são na vida real e na vida representada. 

Irmandade e When They See Us: A construção do imaginário social 
Filme venezuelano de Eduardo Arias-Nath

Trago um exemplo dentro do próprio elenco de Irmandade: Seu Jorge. Meu Jorge (lindo e maravilhoso) é um cantor incrível, grande intérprete (ouçam Negro Drama por ele) e ator negro. Entretanto, a filmografia de Meu Jorge tem muitos papéis de homens do crime. Eis alguns: Édson em Irmandade (2019), Mané Galinha em Cidade de Deus, Beirada em Tropa de Elite 2 (2010), como um garçom sem nome em E aí, comeu? (2012) e interpretou um poderoso traficante de drogas chamado Coyote em Elipsis (2006).

Se você atravessa a rua ao ver um homem negro na mesma calçada, te causando medo por não sentir segurança, não é culpa da construção social da qual comecei falando, a culpa é sua por ainda acreditar que toda pessoa negra é perigosa, assim como não-brancos são dignos da nossa total confiança. Se você não incentiva pessoas negras a estarem em outras posições que não a de subalternidade, de violência ou sexualização, é culpa sua também. 

É certo que Seu Jorge fez outros personagens e que há protagonistas negros de sucesso além dos biográficos ou que ocupam esse ambiente do estereótipo. Porém, o número é baixíssimo. 

Roger Cipó tem um texto sobre a produção e a manutenção de ódio contra os corpos pretos que os streamings estão envolvidos ao não romper com essa narrativa pobre, inclusive indico aqui. Ele reforça que não se trata só de uma #, pois é preciso

“criar um motivo e imaginário autorizador e elaborar a narrativa para que a opinião pública veja uma realidade refletida nas telas e acredite que é importante rever o problema.” 

 

 

Por isso a importância de novas narrativas, com mais cargos com pessoas negras, pra que essa repetição de estereótipo seja cada vez menor. Ou então, se continuará a acreditar que crianças de 14-16 serão sempre culpadas quando acusadas sem provas conclusivas, como no caso dos jovens que foram condenados até 15 anos de prisão em When They See Us. É uma história real e importante de assistir quando se trata dessa construção social na qual vivemos. 

Uma sociedade inteira acreditou, produziu notícias, reportagens, entrevistas e uma gama de outras formas de espalhar que aqueles meninos eram culpados. Foi também a opinião pública que os condenou. E é assim também aqui no Brasil. Toda vez que um jovem negro morre, logo é questionado se não era integrante do tráfico ou se não foram encontradas armas e drogas em suas coisas, enquanto a família e amigos da vítima se esforçam em dizer que “ele era trabalhador”… 

Irmandade
Os 5 meninos foram coagidos, ouvidos sem a presença dos responsáveis ou advogados. Crédito: Reprodução

 

Para quem quiser saber mais: a Oprah entrevistou os homens que inspiraram a história de Olhos que Condenam, o nome é Oprah apresenta: Olhos que Condenam. 

Quer saber como contribuir à favor de um imaginário que não violente corpos e as histórias das pessoas negras? Comece acreditando que as pessoas são boas ou más porque são e não pela tonalidade da sua pele, acredite em pessoas negras, ofereça condições melhores a essas vidas, promova e indique pessoas negras, compre delas, divulgue. Ah, e assista e ouça pessoa negras! 

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