Literatura LGBTQIA+

Literatura LGBTQIA+: A comunidade retratada nas páginas

4 livros para você conhecer um pouco mais sobre o universo LGBTQIA+ na literatura

Hoje eu quero iniciar essa resenha já com uma pergunta para você, caro leitor: “Quantos livros com temática e/ou de autores e autoras LGBTQIA+ você já consumiu na vida?”.

Eu, até alguns anos atrás, poderia responder a essa pergunta com um único livro, “As Vantagens de Ser Invisível” de Stephen Chbosky, que inclusive é, até hoje, um dos meus xodós que pretendo levar comigo pelo resto da vida. Mas, apesar de amar essa história, seria uma vergonha permanecer com apenas um livro LGBTQIA+ na minha carreira de leitor, não é mesmo?

Por isso, do ano passado para cá resolvi mudar e, desde então, tenho consumido um livro atrás do outro e, rapidamente, o gênero entrou pra minha lista de favoritos, me fazendo ir cada vez mais atrás de outros autores e autoras para conhecer seus pontos de vista sobre essa comunidade tão diversificada da qual esse jovem que vos escreve e milhares de outros também fazem parte.

Então, caso você ainda não tenha lido nenhum livro com temática LGBTQIA+ até hoje, essa resenha vai te ajudar a conhecer alguns títulos incríveis (pesados e leves) que, talvez, façam com que o seu interesse aumente um pouco mais para ir à busca deles.

E pra você que já está por dentro e já consome livros com essa temática, também está mais do que bem vindo para conferir a lista que eu separei e deixar nos comentários o que vocês acharam das histórias que já leram, assim como recomendar muitas outras que sabemos que existem por aí e que precisam ser consumidas urgentemente.

Arlindo (Luiza de Souza)

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Capa da HQ “Arlindo” | Divulgação

Da brasileira Luiza de Souza, também conhecida como “Ilustralu” nas redes sociais, “Arlindo” é uma história em quadrinhos que, através de muita cor e muitas referências ao início dos anos 2000, conta a história de um rapaz que mora no interior do Rio Grande do Norte e que está começando a se descobrir durante a fase da adolescência.

Não tinha como eu começar essa lista sem ser por ele, pois é impossível você não ser conquistado por esses personagens logo nas primeiras páginas. A história é divertida e carrega com ela uma intensa dose de nostalgia para quem foi criança lá nos anos 2000 e que vivia enfiado dentro de uma videolocadora até conseguir escolher qual seria o filme do final de semana que seria alugado, por exemplo.

Acompanhar a jornada de Arlindo, um garoto tão doce que já está começando a entender como o mundo pode ser muito cruel quando você é diferente daquilo que esperam que você seja, pode te atingir de diversas formas e, apesar de ser uma leitura leve, “Arlindo” traz alguns temas muito importantes a serem discutidos como violência contra pessoas LGBTQIA+ e homofobia dentro da própria casa.

Com 200 páginas, a história que começou a ser originalmente publicada na conta do Twitter da autora e, posteriormente, com a meta de financiamento coletivo atingida em menos de 24 horas, resultando na publicação física da história pela editora Seguinte, posso afirmar que “Arlindo” te deixará com o coração mais quentinho ao final da leitura. E se você for fã de Sandy e Junior ou Pitty, vai sorrir e cantar junto a cada menção que for feita a eles durante a narrativa.

Os Garotos do Cemitério (Aiden Thomas)

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Capa nacional do livro “Os Garotos do Cemitério” | Divulgação

Seguindo, a próxima indicação foi uma surpresa muito boa pois, quando eu li esse livro, eu não sabia o que esperar dele e, de repente, eu já estava completamente imerso naquele universo. Escrito por Aiden Thomas, “Os Garotos do Cemitério” (Cemetery Boys, no original) nos apresenta Yadriel, um garoto trans que faz parte de uma linhagem de bruxos latinos e que quer provar para sua família tradicional que ele pode ser um verdadeiro bruxo.

Utilizando a linguagem neutra durante a narrativa, a questão relacionada à identidade de gênero é abordada por diversas vezes durante essa história, já que a família de Yadriel ainda reluta em aceitá-lo como ele verdadeiramente é, gerando alguns conflitos entre os personagens.

Além disso, para aqueles que já assistiram ao filme da Disney/Pixar “Viva: A Vida é Uma Festa” vai encontrar aqui um evento já conhecido: o Día de Los Muertos. Assim como na animação, é um dia muito importante onde os familiares já falecidos têm a chance de voltar para o mundo dos vivos por poucos dias para rever seus entes e descobrir as últimas novidades da família.

Porém toda a animação pela aproximação da data se torna angústia quando um dos primos de Yadriel some sem deixar rastros, fazendo com que todos os bruxos e bruxas comecem uma investigação para descobrir o que aconteceu, incluindo Yadriel que, na tentativa de invocar o espírito do primo desaparecido, acabou trazendo um outro rapaz no lugar, aumentando ainda mais os seus problemas já que, agora, o espírito se recusa a ir embora… pelo menos não sem antes resolver suas pendências no mundo dos vivos e descobrir como foi morto.

Com 350 páginas e publicado pela editora Galera, “Os Garotos do Cemitério” é um livro de fantasia que vai te entregar um pouco de suspense, drama, rituais, romance, e, claro, conversas com um fantasma na calada da noite com o qual talvez você também se apaixone como o próprio Yadriel.

Tipo Uma História de Amor (Abdi Nazemian)

Indo para nossa penúltima indicação de hoje, escrito por Abdi Nazemian e embalado por muitos sucessos de Madonna, “Tipo Uma História de Amor” (Like a Love Story, no original) me fez chorar como nunca antes havia chorado lendo um livro.

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Capa Nacional do livro “Tipo Uma História de Amor” | Divulgação

Ambientado nos anos 1989, nessa história conhecemos Reza, um jovem iraniano que acaba de se mudar para Nova York com sua mãe, seu padrasto e o filho dele. A família ainda não sabe sobre a orientação sexual de Reza e, devido a sua cultura e por medo de represálias da família, o garoto prefere manter essa informação em segredo. Mas tudo muda quando, na nova escola, ele conhece Judy, uma aspirante a estilista e o melhor amigo dela, Art, o único garoto gay assumido da escola e que vai balançar com as suas estruturas.

O livro aborda de uma forma sensível a epidemia de AIDS, nos apresentando tanto personagens fictícios que sofrem com o vírus como também trazendo entidades reais para o universo da história como a ACT UP, um grupo político que surgiu em meados de 1987 em Nova York com o objetivo de acabar com a doença, além de lutar para que mudanças fossem feitas nas políticas públicas e ações fossem tomadas para que pesquisas médicas fossem realizadas em busca de meios de proteção e defesa contra a doença, assim como o oferecimento de uma vida melhor para aqueles que já estavam portando o vírus.

Então sim, esse livro de 352 páginas publicado pela editora Harper Collins possui muitos momentos de ativismo e vamos acompanhar os personagens indo em manifestações como também vamos acompanhar toda a discriminação e homofobia que existia na época. Tudo isso, a partir do ponto de vista de Reza, Art e Judy, por que sim, esse livro intercala a narração entre os 3 protagonistas, mas pode ficar tranquilo pois as mudanças de um para outro são tão bem feitas que você não vai se sentir perdido em nenhum momento e conseguirá absorver a história com todo o seu devido impacto. E pessoal, o impacto vem, posso garantir para vocês.

Boy Erased: Uma Verdade Anulada (Garrard Conley)

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Capa Nacional do livro “Boy Erased: Uma Verdade Anulada” | Divulgação

E pra fechar a nossa resenha de hoje, deixei por último o livro que, dessa lista, pode ser o mais difícil e mais denso de ser lido dentre todos, pois se trata de um relato real. O autor Garrard Conley narra a sua própria experiência com um programa de conversão nas páginas de “Boy Erased: Uma Verdade Anulada” (Boy Erased, no original). Já aproveito também para deixar registrado aqui um aviso de gatilho para temas como abuso sexual, tortura psicológica e suicídio.

Filho de um pastor de igreja batista e vivendo com seus pais em uma comunidade conservadora do sul dos EUA, Garrard foi enviado no verão de 2004 para a “Amor em Ação”, um local que prometia “curá-lo de seus desejos e práticas homossexuais” através de um procedimento de reorganização sexual.

É triste pensar na quantidade de pessoas que foram induzidas a participar desses “programas” e ver tamanho dano que foi causado no psicológico de cada uma delas, em algumas, inclusive, de forma irremediável.

Conforme vamos avançando nas memórias de Garrard, intercaladas entre passado e presente, e vamos descobrindo mais e mais sobre o “tratamento” realizado na AEA, o sentimento de indignação e revolta vai crescendo dentro de nós, que se intensifica a cada momento em que lembramos que tudo aquilo que está descrito e narrado ali não é apenas uma obra de ficção e sim experiências reais.

É péssimo pensar que Garrard precisou passar por tudo isso para que essa história chegasse até as nossas mãos nos dias de hoje. Publicado pela Intrínseca, são 320 páginas altamente necessárias, mas também difíceis de serem lidas por toda a carga que as acompanha. Dentre as indicações de hoje, essa também é a única que já foi adaptada para os cinemas (com o mesmo título do livro) em 2018 sob a direção de Joel Edgerton e contando com Lucas Hedges, Nicole Kidman e Russell Crowe no elenco.

Então, se você já leu algum desses livros, deixa aqui seu comentário e me conta do que você mais gostou ou menos gostou e, caso você não tenha lido nenhum deles ainda, eu espero que tenha conseguido despertar pelo menos um pouco de interesse para que você possa conferir qualquer uma dessas narrativas no futuro.

A literatura LGBTQIA+ está crescendo cada vez mais e é ótimo poder ver tantos talentos ganhando espaço e podendo contar as suas próprias histórias e vivências. Sabemos que o caminho é longo e a luta ainda está longe de acabar, mas vamos continuar seguindo e eu espero poder ler ainda muitas e muitas dessas histórias nos próximos anos.

Texto Elaborado por Jamerson Nascimento.


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