Aristóteles e Dante

Aristóteles e Dante: O Amor e a Polêmica

Antes de Dante, estar com alguém era a coisa mais difícil do mundo para mim. Mas, com ele, conversar e viver e sentir pareciam coisas perfeitamente naturais. No meu mundo não eram.

Lançado no último dia 26 de outubro, a sequência tão esperada de “Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo” finalmente chegou as mãos dos leitores que esperavam por isso desde 2012, quando o primeiro volume foi lançado.

Aqui no Brasil, o lançamento foi um pouco mais tarde, em 2014, e a encarregada por trazer essa história para cá foi a editora Seguinte, o selo jovem da Companhia das Letras, a qual também é a responsável por lançar agora a sequência chamada “Aristóteles e Dante Mergulham nas Águas do Mundo“.

Aristóteles e Dante Autor
Benjamin Alire Sáenz

A linguagem poética e fácil de ser entendida de Benjamin Alire Sáenz, o autor dos livros, rapidamente conquistou diversos fãs ao redor do mundo que se apaixonaram por esses dois garotos. Mas o que começa como uma história de amor incrível se torna extremamente problemático quando vamos chegando próximo do final do livro 1, algo que falaremos sobre um pouco mais pra frente.

Mas afinal, do que se trata “Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo”? Se passando no final do anos 80 e narrado em primeira pessoa, nesse livro conhecemos Aristóteles Mendonza, um rapaz com descendência mexicana que vive com seus pais, Liliana e Jaime, nos Estados Unidos.

Aristóteles e Dante
Capa nacional do primeiro livro | Divulgação

Apesar de ter um bom relacionamento com sua mãe, Ari (como é chamado pelos mais próximos) não possui o mesmo com o pai, um veterano da Guerra do Vietnã, que nos dias atuais trabalha nos correios, mas que devido aos traumas da guerra, não costuma conversar muito em casa.

No auge de seus 15 anos, Ari vive em uma eterna melancolia, com certa dificuldade para entender o que está se passando em seu corpo e mente, muitas vezes beirando a solidão, enquanto atravessa o famigerado período do “Ensino Médio”, que é o terror de muitas pessoas com todos aqueles hormônios, descobertas e mudanças acontecendo ao mesmo tempo.

No meio de tudo isso, em uma bela manhã de verão durante suas férias escolares, Ari ouve a frase que vai mudar pra sempre tudo ao seu redor: “Posso ensinar você a nadar“. Aqui somos apresentados a Dante Quintana, outro rapaz também com raízes mexicanas e que vai transformar a forma como Ari enxerga o mundo e também uma peça primordial para que ele entenda sua própria sexualidade e descubra os segredos do universo.

Aristóteles e Dante
Ari e Dante pelos olhos do artista Johncito

A partir daí, vamos acompanhar o crescimento dessa amizade, as dores e dúvidas que permeiam os pensamentos e que assombram Ari durante a noite em forma de pesadelos, além de conhecer Soledad e Sam, os pais de Dante, personagens tão interessantes quanto os pais de Ari. Tudo isso através de muitos diálogos e reflexões que enchem as 392 páginas que compõe a edição nacional do primeiro livro.

E então chegamos ao ponto crítico dessa história. Temos duas questões preocupantes nesse livro. A primeira é a total falta de menção a epidemia de AIDS que assolava toda a comunidade gay da época (a qual estava basicamente em seu auge), então é de se estranhar que uma história LGBT que se passe nos anos 80 não tenha uma mínima citação sobre algo assim. Pode ser também uma representação da dificuldade de acesso as informações que também existia nessa época? Sim, talvez, mas ainda assim é de se questionar.

A segunda envolve um caso de transfobia onde, além da utilização de pronomes para se referir a personagem estar incorreta, também resulta em uma cena ainda mais violenta e, depois que essa ação se acaba, a história segue como se nada tivesse acontecido, no mesmo tom que estava antes desse fato ser relatado.

Então, por mais que você ame essa história, assim como eu também me apaixonei na primeira vez que o li, é de extrema importância que consigamos entender o por que desses dois pontos terem sidos evidenciados aqui e que olhemos com mais cuidado questões como essas que devem ser abordadas sempre da maneira mais responsável possível, por que a realidade foi – e ainda é – muito brutal com essas pessoas e elas merecem ser representadas da maneira certa.

Era esperado que, com a chegada da sequência, esses pontos fossem corrigidos, então bora aproveitar pra falar sobre “Aristóteles e Dante Mergulham nas Águas do Mundo“.

Aristóteles e Dante
Divulgação

A sequência se inicia do mesmo ponto em que o primeiro livro se encerra e agora vamos acompanhar o amadurecimento dos nossos personagens, assim como as relações entre eles. Diferente do primeiro, nesse livro o autor já conseguiu trazer o contexto da epidemia de AIDS para dentro da história e todo o descaso que o governo americano teve em relação as vítimas dessa doença. Também não é algo muito aprofundado, mas dessa vez ao menos está presente e afeta os personagens durante a narrativa de certa forma.

Aristóteles e Dante
Capa nacional do segundo livro | Divulgação

Em relação a transfobia relatada no livro anterior, ela ganha algumas correções trazendo já, na primeira menção ao acontecimento, os pronomes corretos para a personagem e mais algumas citações durante o enredo, além de já incluir, logo nas primeiras páginas, uma nota da editora informando que, por ser uma história que se passa nos anos 80, “os pensamentos e os diálogos dos personagens podem refletir ideias e normas sociais da época, e devem ser lidos nesse contexto“. Não foi exatamente um pedido de desculpas do autor pelo que ocorreu no livro anterior, mas foi uma forma de, talvez, tentar garantir que não acontecesse novamente.

Voltando ao enredo, todo o contexto que envolve morte e luto é mais ampliado aqui, o qual também inclui uma perda muito grande e significativa para o Ari, que só conseguirá superar com a ajuda de seus amigos.

Sim, “amigos” por que o Ari tem um desenvolvimento e uma evolução sem igual nesse segundo livro. Toda a reclusão que ele mesmo se impunha no livro anterior, agora já não existe mais e ele começa a de fato se abrir para as pessoas ao seu redor e é muito bonito ver esse crescimento, não apenas deste personagem como de todos os outros também, sendo o pai de Ari, Jaime, o meu segundo favorito.

Nas 448 páginas que compõe a edição nacional do livro, somos apresentados a novos personagens, assim como os seus dilemas, além de presenciar algumas questões relacionadas a racismo e como os personagens reagem a isso. E, claro, todo o amor que vai crescendo e crescendo entre Ari e Dante, os desafios que envolvem o final do ensino médio e a ida para faculdade, trazendo com ela o início da vida adulta para ambos.

Então, pra finalizar, nos dois livros que contam a história de Aristóteles e Dante, você vai encontrar temas como descobertas sexuais, a importância da amizade, assim como a importância do apoio familiar na vida de um indivíduo, amadurecimento, saúde mental, aceitação, além do já mencionado gatilho relacionado a transfobia.

Atualmente, o primeiro livro, “Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo”, está em processo de adaptação pro cinemas e vai contar com Max Pelayo no papel de Ari e Reeze Gonzales no papel de Dante. A direção fica por conta de Aitch Alberto e o longa é produzido por Lin-Manuel Miranda.

Então, caso você ainda não tenha lido esses livros, sugiro que deem uma chance e apreciem todos os pontos positivos que essa história tem a oferecer mas também pensem e reflitam sobre as problemáticas, pois é a partir da reflexão que poderemos construir um futuro melhor e digno para todas as pessoas. E fica a pergunta: Será que um volume 3 vem aí?

Texto Elaborado por Jamerson Nascimento.


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