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Memento: O Poder da Montagem Não-Linear

A memória não é confiável.

Christopher Nolan é um renomado diretor que, durante a pandemia, entrou em uma polêmica acerca de como e quando o seu mais recente filme, Tenet, deveria ser lançado, questão a qual também, pouco tempo depois, resultou no fim de seu relacionamento de muitos anos com um dos maiores estúdios de Hollywood, a Warner Bros.

Mas o diretor não ficou conhecido mundialmente por esse episódio. Nolan chamou de fato a atenção do mundo todo após trazer uma das melhores versões – se não a melhor – do Homem Morcego para as telonas com a sua trilogia intitulada “Dark Knight”, responsável também por nos presentear com a icônica performance de Heath Ledger como Coringa.

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Christopher Nolan | Divulgação

Porém, hoje não vamos falar de nenhum desses fatos e nem mesmo criar teorias sobre se o pião parou ou não de girar ao final de “A Origem” (Inception, no original). Hoje, vamos voltar lá pro início dos anos 2000, quando esse mesmo diretor, no começo de sua carreira, lançou uma obra prima que merece ser relembrada e revisitada sempre que possível.

“Memento” (distribuído no Brasil com o título “Amnésia”) foi lançado em 2001 nos cinemas e nos apresenta a história de Leonard (Guy Pearce), um investigador de seguros que, após ter sua esposa brutalmente assassinada, decide ir em busca do assassino a fim de obter vingança. Parece uma história clichê, não é mesmo?

E de fato é, mas e se eu te contar que, após a morte da esposa, Leonard sofreu um trauma cerebral impedindo-o de reter e criar novas memórias, fazendo com que ele lembre apenas de acontecimentos até a data do crime. Isso deixaria as coisas mais interessantes para você?

E se, além do fato do nosso personagem principal sofrer de Perda de Memória Recente, o próprio filme fosse contado de maneira reversa, ou seja, de trás para frente, do fim para o começo. Ainda parece um filme comum? Acho que agora eu consegui prender a sua atenção, não é?

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Guy Pearce como Leonard Shelby, o protagonista de “Memento” | Divulgação

É isso mesmo, apesar de o cerne da história de “Memento” não ser nada muito fora do que estamos acostumados, o que esse filme traz de inovador e o torna dezenas de vezes melhor foi essa escolha de seguir uma montagem não linear durante a edição do material gravado, ou seja, a ordem dos eventos que nos é apresentada em tela não é a mesma ordem do que ocorreu de fato na linha temporal daquele universo.

Sim, é verdade que existem muitos outros longas que possuem esse mesmo tipo de montagem, como por exemplo o famoso “Pulp Fiction – Tempos de Violência” dirigido por Quentin Tarantino, “Quem Quer Ser Um Milionário?” (Slumdog Millionaire, no original) dirigido por Danny Boyle e até mesmo o brasileiro “Cidade de Deus” dirigido por Fernando Meireles, mas em nenhum desses casos citados temos um protagonista como Leonard e, apesar de transitarem entre passado e presente, nenhum segue realmente a mesma linha que este filme.

Então assistir “Memento” é como montar um quebra cabeças onde, a cada peça que é encaixada, uma nova perspectiva surge em relação a imagem que está sendo construída bem diante dos seus olhos. É muito empolgante acompanhar a trajetória de Leonard justamente por causa disso, pois quando a gente acha que está começando a sacar a história, vem a cena seguinte de um momento anterior ao que foi mostrado que muda completamente a nossa visão em relação aos fatos, nos forçando a reconstruir constantemente a narrativa dentro da nossa cabeça.

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As peças do quebra cabeças | Divulgação

Agora se esse longa possuísse uma montagem padrão e linear, contando os fatos de maneira cronológica, todo o impacto dessa experiência seria perdido e ele se tornaria apenas mais um filme de vingança qualquer e, muito possivelmente, esquecível (sem trocadilhos).

Outro ponto interessante é que o Leonard também pode se enquadrar dentro do perfil de narrador não confiável devido a sua condição, nos fazendo questionar, além das atitudes dos personagens a sua volta, também as suas próprias já que como ele mesmo diz a certa altura: “lembranças podem ser distorcidas, são só uma interpretação e não um registro.

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Guy Pearce e Joe Pantoliano em cena de “Memento” | Divulgação

Então ao ir juntando todos esses pontos, Christopher Nolan conseguiu transformar uma história simples em algo complexo e desafiador para o espectador, fazendo com que nós mergulhemos de cabeça dentro da mente fragmentada desse personagem e sinta na pele toda a sua confusão em relação ao que acontece ao seu redor.

Mais uma coisa que contribui para toda essa construção, sem dúvidas, são os papéis interpretados por Joe Pantoliano e Carrie-Anne Moss como Teddy e Natalie, respectivamente. A dualidade que os dois vão apresentando durante a narrativa também prende a nossa atenção justamente por não conseguirmos distinguir logo de cara quem está falando a verdade (se é que de fato algum deles está), tornando “Memento” um dos raros casos em que, mesmo após os créditos finais, ainda permanece na sua cabeça por um tempo te levando a questionar o que de fato aconteceu.

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Carrie-Anne Moss e Guy Pearce em cena de “Memento” | Divulgação

Portanto, após ter exposto todos esses pontos, consigo afirmar que o trabalho desenvolvido por Christopher Nolan em “Memento” continua impecável mesmo após 20 anos de seu lançamento e, arrisco dizer, ainda relevante dentro do mundo cinematográfico devido a excelência tanto na criação e condução do roteiro (crédito que também deve ser dividido com seu irmão, Jonathan Nolan) como, até mesmo, na escolha do elenco que entregam ótimos momentos durante o andamento da história.

Caso você ainda não tenha conferido essa obra, neste momento ela está disponível tanto na Netflix quanto na Amazon Prime Video, então não perca tempo e assista antes que saia dos catálogos de streamings. Se você curtir tanto quanto essa pessoa aqui, indique também para os seus amigos pois esse filme é incrível demais para simplesmente cair no esquecimento.

Trailer do Filme

Texto Elaborado por Jamerson Nascimento.


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