o fundo é apenas o começo

O Fundo é Apenas o Começo (Neal Shusterman)

O que vejo quando fecho os olhos? Vejo além da escuridão, e tanto acima quanto abaixo há uma grandiosidade incomensurável.” (O Fundo é Apenas do Começo – Neal Shusterman)

 

O que você sabe sobre esquizofrenia?

Talvez você entenda que se trata de um distúrbio mental, e que tem alguma coisa a ver com alucinações. Talvez você até tenha curiosidade sobre o assunto, mas também um tantinho de medo, porque parece uma coisa perigosa. Ou será que esse medo está aí, implantado em você, a partir de representações pouco verídicas da mídia, que por muito tempo refletiu o pensamento de que doenças mentais eram coisa de “gente doida”?

o fundo é apenas o começo
Capa do livro O Fundo é Apenas o Começo (Foto Divulgação)

O mundo inteiro, nos últimos anos, tem finalmente parado para encarar as doenças mentais como um problema real de saúde pública. Já tivemos muitos avanços de conscientização sobre doenças mais usuais como ansiedade, depressão e transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Mas existem outros um tanto mais “diferentes” como a esquizofrenia, bipolaridade, ou o transtorno de personalidade dissociativa (DID ou múltiplas personalidades) que ainda carregam um enorme estigma negativo no imaginário popular.

É nessa hora que levantamos nossas mãos aos céus e agradecemos ao Neal Shusterman por ter escrito O Fundo é Apenas um  Começo, uma obra ficcional sobre um garoto de 15 anos chamado Caden Bosch que tem mergulhado cada vez mais fundo nas águas de sua doença mental: a esquizofrenia. Apesar de fictícia, o livro traz uma imensa carga de realidade, uma vez que a obra é baseada na experiência do próprio autor como pai de uma criança com o mesmo diagnóstico do personagem Caden. As ilustrações do livro, inclusive, são desenhos feitos por seu filho, Brendan Shusterman, na época de seus delírios alucinatórios.

Em O Fundo é Apenas o Começo acompanhamos a história de Caden sob duas perspectivas diferentes: quando sua mente está no mundo real, e quando está alucinando

Na sua vida real de colegial, Caden está passando por momentos de ansiedade, lutando para entender o que está acontecendo com o mundo ao redor dele, ao mesmo tempo que “sabe” que não pode contar a verdade aos seus pais. E se eles forem também como aquelas pessoas na rua que ele “simplesmente sabe” que querem matá-lo?

Ao mesmo tempo, em sua mente alucinada, Caden é o marujo de um navio que viaja por águas turbulentas procurando pelo “Challenge Deep” (As Profundezas Desafiadoras), no qual seu Capitão parece disposto a atirá-lo. Já o Papagaio do Capitão, bem, esse aí tem outros planos para Caden.

Conforme o garoto se afunda cada vez mais em sua condição, estes dois mundos vão se fundindo, borrando toda sua percepção da realidade. A partir deste ponto, o mais interessante é como o livro nos impele a procurar os significados de cada elementos da alucinação. Por exemplo: o navio é a mente de Caden, e o mar são seus pensamentos – às vezes embaralhados como o mar tempestuoso, ou claros como a superfície do oceano quando não há vento.

 

A energia solar não está com nada – se fosse possível usar a negação como combustível, ela abasteceria o mundo por gerações” (O Fundo é Apenas do Começo – Neal Shusterman)

 

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Ilustração do livro, representa os desenhos de Caden durante seus delírios, originalmente desenhada pelo filho do autor

Pra mim, mais do que uma leitura conscientizadora, O Fundo é Apenas o Começo foi uma experiência incrível! Cada palavra escrita carrega todo o peso de ser aquele garoto tão cheio de medo do mundo no qual passou a acreditar. Tendo que confrontar seus pensamentos, que parecem tão corretos, para só assim aceitar o tratamento.

Sim, também falamos sobre tratamento aqui, outra parte maravilhosa da obra, na minha opinião: acompanhar como Caden, junto com o leitor, vão entendendo os elementos de suas alucinações, decidindo se são amigos ou inimigos. Isso é passo fundamental para chegarmos ao clímax da história, onde Caden vai ter que decidir se vale mesmo a pena lutar, ou se é melhor se jogar de vez na escuridão (afinal, quando estiver lá, ele nem vai saber a diferença, não é mesmo?).

Uma obra simplesmente necessária, que traz, apesar de tudo, uma mensagem de esperança para os portadores de distúrbios mentais.

 

Classificação da Larissa (@cons.ciencialiteraria): 5 estrelas

 

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