Babadook

The Babadook e o luto: Seu filme de terror favorito pode não ser sobre fantasmas

The Babadook canaliza sentimentos e acontecimentos reais em seres sobrenaturais.

Todo mundo sabe qual o objetivo dos filmes de terror, não é mesmo? Além de te fazer ter medo, um bom filme de terror te deixará desconfortável e, talvez, pensando nele por meses. Isso é uma característica básica do gênero. Existem várias formas de causar medo e desconforto, e houve uma evolução tática desses meios com o passar do tempo.

Os filmes de terror mais antigos, das décadas de 70 e 80, por exemplo, investiam em monstros, vampiros, tubarões, lobisomens e etc. Na década de 90, o cenário mudou, e o foco passaram a ser os fantasmas e assassinos em série, mais realistas. No início dos anos 2000, começaram as surgir novos fatores, além dos costumeiros fantasmas. Um exemplo é a franquia Premonição, onde a própria morte mata os personagens de formas cada fez mais peculiares e grotescas. O próprio gore, presente nos filmes de mais violência, é um fator usado para causar desconforto. Porém, a partir de 2010, o cinema do horror começou a investir em outros fatores, fora desse já era conhecidos, para amedrontar os espectadores: a vida real.

O que eu quero dizer com vida real? Bom, os diretores começaram usar elementos cada vez mais recorrentes no dia a dia de forma assustadora, como o racismo no filme Corra, de Jordan Peele, e na série Lovecraft Country, de Misha Green; e os problemas psicológicos no filme Hereditário, de Ari Aster.

Um bom exemplo disso é visto no filme Babadook, dirigido por Jennifer Kent, lançado em 2014. Ele pode parecer um corriqueiro filme de terror psicológico: uma viúva e seu filho enfrentando um monstro que assombra o menino, além do fato da protagonista ter alguns problemas em relação ao afeto que sente pelo filho. O filme tem todos os fatores esperados para um filme de terror: o fantasma tem um som característico (Babadook, dook, dook), se esconde no escuro, dá sustos e tem até um livro do mal! Porém, se pararmos para analisar, o filme Babadook não é uma história de fantasmas, e sim, de luto.

Babadook / Trailer

A protagonista, Amelia, é uma pessoa conturbada. Ela criou seu filho sozinha por 6 anos após o marido morrer em um acidente de carro. Amelia e seu filho, Samuel, começam a ter experiências estranhas na casa em que vivem, com Sam mudando de comportamento para se proteger do ‘monstro’ que os persegue. Monstro esse que, eventualmente, domina Amelia e faz com que ela entre em um estado de quase psicose. O Babadook, no caso, é uma personificação do luto e dos impactos emocionais causados no psicológico de Amelia, que nunca superou de fato a morte do marido e canaliza esses sentimentos na sua forma de lidar com o filho e com a vida.

Babadook
The Babadook

Isso, entretanto, não fica claro de primeira no filme. Porém, na segunda vez que se assiste, se prestar a atenção nos detalhes, fica fácil de ver.

Primeiro, o livro. O livro chamado ‘Mister Babadook’ que Sam encontra no filme e pede para que Amelia leia para ele, conta a história desse ‘monstro’ e como você não pode fugir ou se livrar dele. Depois, tem a casa onde eles vivem. A casa foi intencionalmente construída no filme para parecer um lugar mórbido, escuro e triste. Além disso, é possível perceber no filme que Amelia, ao tentar proteger Sam do monstro, é diretamente afetada por ele, e começa a se comportar de forma completamente diferente. Todos esses sinais apontam que as características do filme são, na verdade, metáforas para o luto, a tristeza e a saudade pela perda.

O principal sinal, porém, é o fim do filme. No final, Amelia não destrói o Babadook, ela o domina e o aprisiona no porão da casa. Depois que ela aprisiona o monstro, a vida de Amelia e Sam vai voltando ao normal gradativamente, e ela é mostrada alimentando o monstro preso no porão no fim do filme. Isso representa a forma como ela aprendeu a lidar com o luto e saudade do marido, algo que não vai completamente embora, mas com o qual ela aprende conviver.

Existe, também, a teoria de que o Babadook é um símbolo LGBTQ+, mas isso é assunto pra outra resenha.

O ponto é: os filmes de terror têm assumido uma posição não tão esperada. Estamos acostumados com Freddy Krueger e Leatherface, com facões e mãos cortantes, porém essa mudança é bastante positiva para o gênero. Atualmente, o terror consegue te fazer ficar assustado com coisas muito além de sangue e jumpscares: ele te faz ter medo da vida e traz uma paranoia jamais vista antes, transformando a experiência em algo muito maior do que apenas assistir um filme.

Texto por Thais Moreira


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