Vida de Cão (Elizabeth Lo)

Vida de Cão, uma experiência para aprimorar nosso olhar ao próximo | Crítica

Disponível nas plataformas digitais, o documentário Vida de Cão, de Elizabeth Lo, mostra, de forma sensível e com um olhar afiado, a luta pela sobrevivência e pelo mínimo de dignidade

Pensado como uma carta de amor aos cães, o documentário Vida de Cão, dirigido, produzido, filmado e editado por Elizabeth Lo, acompanha a história de três cachorros de rua na cidade de Istambul, na Turquia, e em 1h12 de duração, consegue dizer muito com pouquíssimos diálogos.

Stray, o nome original da obra, pode ser traduzido como “vira-lata” e também como “vaguear, devanear”. E sinceramente não há melhor palavra para definir este documentário. 

Isso porque estamos acostumados com os filmes de cachorro em que o animal possui um lar acolhedor e feliz, ou fazendo parte de uma família feliz, ou tentando voltar para casa. Aqui, somos apresentados a uma realidade que tendemos a ignorar: a dos animais de rua e sua luta diária pela sobrevivência, buscando abrigo, comida e fazendo amizade com os humanos que encontram pelo caminho.

A cineasta acompanhou Zeytin, Nazar e Kartal, os três vira-latas protagonistas, pelas ruas de Istambul entre 2017 e 2019. A escolha pela cidade foi muito acertada, pois durante muitos anos, a Turquia lidava com os animais de rua por meio do extermínio. Só após muitos protestos da população foi criada uma lei que tornou a Turquia um dos únicos países onde tanto a captura quanto o assassinato de animais de rua, incluindo a eutanásia, são proibidos. Assim, os animais que andam livremente hoje nas ruas são considerados um emblema de resistência.

Vida de Cão (Elizabeth Lo)

Como linguagem documental, Vida de Cão é primoroso. A câmera quase sempre colocada na altura dos cachorros dá a sensação de que estamos sob a visão de um outro animal, que fez o favor de nos mostrar seu ponto de vista sobre a vida nas ruas.

O documentário não segue uma linha narrativa específica, sendo apenas recortes de momentos da vida dos três cachorros, intercalados por pequenas inserções de frases de filósofos entre as cenas, que já falavam sobre a natureza dos cães desde antes de Cristo. Algumas informações sobre os protagonistas e sobre o histórico do país também são inseridas dessa forma. Apesar do formato se adequar à proposta, o filme pode se tornar lento e arrastado para algumas pessoas por conta dessa falta de linearidade.

Por não ter entrevistas nem narração, o áudio de Vida de Cão se resume a sons ambientes e diálogos capturados aleatoriamente, com apenas algumas exceções, o que faz com que a trilha sonora tenha um papel fundamental na condução do espectador nas emoções e mensagens que o filme se propõe a passar, que por sinal, são muitas.

Vida de Cão (Elizabeth Lo)

É impossível não se preocupar com os cães, não se contaminar pela fofura deles e, claro, temer pelo que pode lhes acontecer. Os riscos de se viver nas ruas, ainda que protegidos pela lei do país, ficam muito claros em Vida de Cão, desde brigas com outros animais até o olhar preconceituoso de algumas pessoas, que os enxergam como violentos por serem de rua, e até um pouco de claustrofobia quando os cães estão no meio de muitas pessoas, invisíveis para a maioria delas, mas tratados com certo carinho por outras, especialmente as crianças. Por outro lado, a simplicidade e pureza dos cachorros também é enfatizada no filme, para quem não tem nada, é preciso muito pouco para ser feliz.

O que deixa Vida de Cão ainda melhor é o pano de fundo. Sim, os cachorros são os protagonistas, mas o lado humano — e político — é muito importante para contar a história. Zeytin, Nazar e Kartal, apesar de terem sua vida independente, são acolhidos por alguns garotos, imigrantes sírios, que também não tem onde morar, mas que cuidam dos cães até melhor que de si mesmos, dividindo o pouco que tem com os animais e lhes dando amor e carinho, o que é a definição mais próxima de “lar”.

É interessante notar as semelhanças entre os garotos e os animais desabrigados, bem como as diferenças. Mesmo que tenham uma vida difícil, sem uma rotina determinada e sem saber se estarão vivos no dia seguinte, os cachorros são considerados um emblema de resistência e protegidos pela lei, algumas pessoas até os acariciam nas ruas, enquanto os garotos são ainda mais invisibilizados, considerados um problema, facilmente descartáveis, mal tendo direito à alimentação.

No fundo, Vida de Cão é uma experiência provocativa em diversos sentidos. Ao mesmo tempo que comove com o carisma animal e apelo emocional, incomoda pelo encontro com uma realidade difícil, cheia de disparidades sociais entre os cachorros, entre as pessoas e entre as duas espécies. É preciso um olhar atento para perceber as nuances do documentário, que é muito mais do que o dia-a-dia de cachorros de rua.

Vida de Cão está disponível para aluguel e compra nas plataformas Claro Now, Vivo Play, Sky Play, Google Play e YouTube Filmes.

Classificação do autor

Avaliação: 4 de 5.

*Texto por Ana Paula Castro


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