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Você, de Caroline Kepnes: O que esperar do primeiro livro, depois de assistir à série

Existem muitas diferenças entre o primeiro livro e a primeira temporada da série Você, algumas delas são capazes de te convencer que a série talvez seja melhor que livro

“Você” é uma das mais notórias séries da Netflix no momento. Já em sua terceira temporada, se preparando para a quarta, a série acompanha Joe Goldberg, um homem aparentemente normal que trabalha em uma livraria e se apaixona por uma mulher chamada Guinevere Beck. O que a princípio aparenta ser um simples rapaz apaixonado, logo mostra sua verdadeira face: um homem obsessivo que está disposto a perseguir e matar qualquer pessoa que cruze o caminho entre ele e sua amada.

A série é inspirada nos livros de Caroline Kepnes: Você (2014), Corpos Ocultos (2016) e Você me Ama (2021). A primeira temporada mostra os eventos do primeiro livro, Você. Na série para a TV, foram feitas diversas modificações, o que é muito comum quando falamos de adaptações. Porém, acredito que, por conta de certas modificações, o tom da história muda completamente do livro para a série, e é interessante analisá-los lado a lado.

Personagens

No livro, os personagens presentes na trama são praticamente os mesmos das telinhas, com a exceção de alguns adicionais no livro ou na série. Porém, a personalidade de certos personagens é abordada de uma perspectiva bem diferente no livro, especialmente os principais. Joe Goldberg, o protagonista, sendo um dos principais diferenciais, mas esse é um tópico à parte.

Você
Você – Caroline Kepnes / Reprodução

O que ocorre é que, na série, os personagens são retratados com um pouco mais de leveza. E sim, isso parece irreal considerando que a maioria dos personagens possui tendências sociopatas, mas, no livro, eles são mais intensos, e isso não necessariamente é positivo para todos.

Um desses casos é a própria Guinevere Beck, principal interesse romântico de Joe no primeiro livro e na primeira temporada da série. Beck, em essência, é essa personagem redundantemente confusa, cuja vida é sempre uma bagunça e que se manifesta através da atração que homens sentem por ela. Na série, porém, isso é mostrado de forma mais sutil. Sabemos que Beck é uma mulher que aprecia a atenção que recebe, mas, por conta da sutileza utilizada na série, fica implícito se ela realmente gosta de ser vista dessa forma ou se essa impressão parte da percepção de Joe, que a observa com a finalidade de tê-la.

Além disso, seu relacionamento com suas amigas é mais realista na série, e mais sombrio no livro. Na série, ela interage com as melhores amigas, Annika Attwater, Lynn Lieser e Peach Sallinger, de forma a exercer certa co-dependencia. Ela se mostra mais próxima de Peach, mas ainda se encontra e se relaciona com Annika e Lynn de forma orgânica, mesmo que as amigas sejam problemáticas.

No livro não, Beck é uma bagunça completa. Ela, de certa forma, usa as duas amigas, Lynn e Chana (Annika é Chana, no livro) como uma muleta quando ela precisa de alguns conselhos e companhia, mas existe uma distância entre elas. Não existe a química e a proximidade de uma amizade, o que pode ser proposital, mas destoa na série.

A única real proximidade que ela tem é com Peach, que a manipula e a compra com seu dinheiro, a fim de mantê-la por perto e alimentar sua paixão por ela. Essa mudança de posicionamento transforma a Beck do livro em uma mulher um pouco mais fria e distante, enquanto a Beck da série é mais ingênua e carente, o que faz parecer que seus erros são mais genuínos.

De forma geral, Beck não é uma mulher muito forte dentro da trama, mesmo sendo a principal da primeira temporada. Na própria série, na segunda temporada, Love, próximo interesse romântico de Joe pontua que Beck é, no geral, desinteressante. E eu concordo com ela, de certa forma.

Joe Goldberg

Joe é um homem… específico, para dizer o mínimo. Dizer que ele é obsessivo é pouco, ele é psicótico e obcecado. Mas isso não é segredo, nos primeiros minutos da série e nas primeiras páginas do livro já ficamos sabendo disso. O personagem principal geralmente é o que menos muda em adaptações de livros, mas, nesse caso, em minha opinião, Joe é o que mais muda.

Na série, que por muitos foi assistida sem ler o livro, Joe é mostrado como claramente desequilibrado e perigoso. Porém, o diferencial dele são suas narrações, já que a maior parte da história é contada do ponto de vista dele. Ouvir o que ele está pensando nas situações é o que o torna interessante e morbidamente cômico e mundano.

Essa narração permite que ele se explique, diga suas razões para que persiga e mate outras pessoas e isso o coloca em uma situação mais humana. Por conta disso, começamos a, inevitavelmente, simpatizar com ele em alguns momentos porque, mesmo ele sendo o cara mal, ele não parece tão mal assim enquanto escutamos ele narrar suas ações.

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Joe – Você / Reprodução

No livro, onde a história é toda contada por Joe, a tendência é a mesma da série, só que executada de outra forma. No livro, Joe é pedante ao máximo, tem a convicção de que é melhor que quase todo mundo e possui uma necessidade tão grande de provar que está certo que, a partir da metade do livro, ele se torna insuportável. Claro, na série ele também possui essas características, afinal, essa personalidade dele foi construída de forma intencional, porém, na série, isso se manifesta de forma muito mais tênue.

No livro, por muitos dos fatores que o humanizam não estarem presentes, ele se torna apenas um psicopata idiota e obsessivo. Na minha opinião, por essa ser uma das principais característica que nos faz querer acompanhá-lo na série, essa personalidade dele no livro torna a leitura maçante, afinal, é ele que narra a história, e não temos como fugir dele.

Em outras palavras, eu acho seguro atribuir boa parte do fato de Joe ser minimamente agradável na série à atuação de Penn Badgley. O ator faz um ótimo trabalho em nos posicionar dentro da cabeça perturbada de Joe, e consegue nos explicar as motivações por trás de tudo o que ele faz através de pensamentos. A forma que ele fala sobre proteger Beck, na série, te convence de que tudo o que ele faz é remotamente compreensível, por causa da atuação de Penn Badgley. Você obviamente sabe que ele está errado, claro, mas quer entendê-lo. Ele consegue nos manipular a pensar que Joe não é tão ruim assim, algo que o livro também tenta, mas não consegue tão bem.

Diferentes acontecimentos

Existem diversos eventos que ocorrem na série que não acontecem no livro. O que é normal em adaptações. Porém, alguns desses eventos contribuem para que a série siga uma direção um pouco diferente do livro. Claro, a base da história é a mesma: garoto conhece garota, garoto fica obcecado por garota, garoto persegue garota e mata alguns de seus amigos mais próximos e, no final, garoto mata garota. Porém, o que acontece entre esses eventos, difere bastante no livro e na série.

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Ron – Você / Reprodução

Por exemplo, na série, existe toda uma construção entre Joe e Paco, uma criança que mora ao lado de seu apartamento e tem uma relação conflitante com o padrasto abusivo, Ron. Paco, o padrasto e a mãe não existem no livro. E isso é relevante porque o desejo de proteger Paco, que na segunda temporada se torna o desejo de proteger Ellie, é o que torna Joe mais humano nesse primeiro momento. É um dos vários fatores que nos faz pensar que ele, no final das contas, não é um cara tão ruim assim. A falta dessa história no livro contribui para a faceta de que Joe é apenas um psicopata.

Outro ponto que muda, também, é a história de Candace, namorada de Joe antes de Beck. Candace, na série, aparece viva no final da primeira temporada e é assassinada por Love na segunda temporada. No livro, Candace está morta desde o começo, Joe a matou afogada, e quem aparece no fim do livro é outra moça sob o pseudônimo de Amy Adam (nome falso que Candace usa na segunda temporada da série). Se essa nova moça tem alguma ligação com Candace? Bom, só saberemos no segundo livro.

Dessa forma, fica claro ver que alguns elementos de eventos do livro foram usados para formar eventos completamente diferentes na série. O resultado é quase o mesmo, mas a construção é diferente.

Construção das relações

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Peach – Você / Reprodução

Na série, na primeira temporada, vemos que Joe chega a ter uma proximidade com as amigas de Beck, de forma a interagir com elas diretamente. No livro, as mesmas amigas, chamadas de Lynn e Chana, tem sua presença mais marcada por contato via e-mail que Joe acompanha por ter roubado o celular de Beck. Ele não interage com elas pessoalmente de forma significativa no livro. Com exceção, é claro, de Peach.

Peach e Joe tem uma disputa acirrada pela atenção de Beck, já que Peach é secretamente apaixonada pela amiga, e isso não muda do livro para a série. Mas, novamente, no livro, esse relacionamento é mais diretamente de ciúmes de um para o outro, não existe química nas discussões entre Joe e Peach. Na série, já existe uma melhor representação de como a personalidade forte de megera mandona e rica de Peach colide com a necessidade de Joe de ter Beck somente para ele.

Talvez, pela história ser contada de forma unilateral no livro, não é possível visualizar exatamente a real nuance da personagem de Peach que, na série, onde é interpretada por Shay Mitchell, recebe mais profundidade e, consequentemente, uma melhor construção da sua personalidade e das suas interações com outros personagens. Na série, é possível classificar Peach como uma megera estilo femme fatale, e alguns até conseguem gostar dela.

De forma geral, acredito que a série acerta em certos pontos onde o livro poderia ser melhor. Não considero um livro ruim, mas a construção da trama, a narração unilateral de Joe e toda a sua personalidade difícil não faz com que você queira torcer por ele no livro, nem entender suas razões, já que ele não se faz agradável de forma alguma. Na série, pela dinâmica mais aberta, com um senso de humor mórbido, por assim dizer, a história se torna mais atraente de acompanhar, mesmo a trama sendo a mesma.

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Beck e Joe – Você / Reprodução

Um ponto que exemplifica bem essa questão é o fim da primeira temporada, depois que Joe mata Beck. No fim do primeiro livro, é mencionado bem superficialmente que foi escrito um livro sobre a história de Beck depois da sua morte. A série já presta mais atenção nesse ponto, mostrando o livro sendo vendido na livraria, e usando esse mesmo livro como ponto de retorno, na segunda temporada, com Love lendo.

Por outro lado, a morte de Beck, em si, é muito mais detalhada no livro. O que na série é feita apenas uma alusão, no livro ficamos sabendo exatamente como Joe mata Beck. A princípio, achando que a assassinou por acidente, e depois intencionalmente a sufocando de forma brutal, e se arrependendo logo em seguida. É fato que o livro mostra muitos detalhes mais gráficos das atrocidades de Joe, o que contribui para que o tom da trama seja mais sombrio e perverso, o que não necessariamente é um problema.

A história que Caroline Kepnes quer contar com sua, até então, trilogia, é uma boa história. Esse ponto de vista de observar um assassino tentar se convencer de que é um cara bonzinho é uma boa pedida. Apenas é necessário notar que, para quem viu a série antes de ler o livro, é preciso ter em mente que existem muitas diferenças, e é preciso remanejar suas expectativas antes de abrir o livro.

Texto por: Thais Moreira


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