O Palhaço Coroado

O Palhaço Coroado ou um rei sem coroa?

Um dorama que discute quem realmente é digno de estar a frente de um povo

O Palhaço Coroado (ou “The Crowned Clown”) é um dorama de época que retrata a dinastia Joseon (entre 1392 e 1897), misturando intrigas, conspirações, romance e até um pouco de comédia. Tudo isso, feito de forma bem construído, sem pontas soltas e um final que, ainda que não perfeito para todos os gostos, muito bem feito.

O Príncipe herdeiro, Yi Heon (Yeo Jin-goo), assume o trono com um punho firme, sem poupar esforços para matar aqueles que se opõem a ele, mesmo quando seu próprio irmãozinho é acusado de traição. Claro que, depois disso, a consciência pesada não o deixa dormir em paz e o rei começa a depender de “ervas” para ajudá-lo, o que acabam mexendo ainda mais com sua cabeça. Para finalizar, temos, de fato, alguém tentando mata-lo, de forma que ele sai de cena e coloca um sósia em seu lugar.

O sósia, nada mais é que Ha-seon (também interpretado por Yeo Jin-goo), um jovem humilde que trabalha com sua irmã em uma trupe de circo, zombando, principalmente do rei maluco e da rainha “ciumenta”. Em uma dessas apresentações, ele é descoberto pelo secretário chefe real (Kim Sang-kyung) que não tem nem como não notar a semelhança gritante e acaba levando o jovem para o palácio, meio contra a vontade dele. Ele teve um pequeno telecurso ali para saber o que fazer e foi para jogo.

O Palhaço Coroado

De quantas maneiras isso vai dar errado?

O primeiro erro foi terem levado o cara contra a vontade dele, sem nem contar que a “vaga de emprego” era para servir de isca, ou seja, ele pode ser morto a qualquer momento, ele está lá para ser morto no lugar do rei. Além disso, no meio dessa confusão o separaram da irmã e, por causa disso, a coitada acabou passando por uma situação terrível de abuso, o que acarretou num trauma que a deixou muda.

O Palhaço Coroado

Ao mesmo tempo, as consequências do que aconteceu com Dal-rae (Shin Soo-yun), a irmã dele, serão o pilar principal que o farão aceitar de vez a posição de “isca”, sem medo de morrer, desde que, em troca, o responsável que fez aquilo com ela caia junto e, claro, ele não é um peixe pequeno (a vingança será doce?).

No meio disso, temos uma personagem que mexerá com o coração do nosso protagonista, coisa que não poderia acontecer de jeito nenhuma. Ele acaba, aos poucos, se afeiçoando pela rainha Yoo So-woon (Lee Se-young) que, pelo menos nesse jogo de enganação é sua “esposa” (ela não sabe a verdade). 

Já ela, que há muito sentia que o coração de seu marido estava longe e estava presa num casamento sem amor, percebe a mudança nítida. Começando pelo jeito como ele a trata e como ignora todas as outras concubinas e as investidas da empregada (acho que o outro rei era dado).

“Mas, às vezes, é preciso desistir de dez ou até de cem por um! De que adianta ter poder e roupas de seda, se tem a cabeça cheia de pensamentos bestiais? Se não tem mais humanidade no seu coração?”

E onde mora o perigo?

Diferente da maioria dos doramas de época, temos dois focos principais de problemas, ao invés de um. De um lado, temos a rainha mãe (madrasta do rei) que quer matá-lo pelo que ele fez ao seu filho. Do outro, temos um oficial do governo de esquerda que quer apagar a rainha atual e colocar alguma sobrinha sua no lugar, já que, ao que parece, o plano de fazer o rei engravidar uma delas não deu certo.

O Palhaço Coroado

E nessa briga, essas duas forças acabam, muitas vezes, se esbarrando e atrapalhando um pouco um ao outro, porém, ainda conseguem dar muito trabalho ao nosso falso rei que precisa quebrar a cabeça para tentar desmascarar a rainha mãe e revelar as verdadeiras intenções do ministro de esquerda.

Por fim, nem é spoiler algum que, em certo momento da história, toda essa galera descobrirá o segredo sobre a troca do rei.

Comparando os dois reis, é possível ver que uma das grandes discussões do dorama é que nascer com sangue real não te torna um rei de verdade, são suas ações que te tornam digno de usar a coroa. O rei Yi Heon era um rapaz cheio de ódio no coração, impiedoso e consumido pelo vício, não se importando em pisar nos outros, nem como suas ordens afetariam o povo.

Já Ha-seon, como rei, aplicou uma série de mudanças na corte, visando ajudar seu povo, ainda que sob protestos de vários ministros. Todas as suas ações eram voltadas para o ganho do povo, desde mudar a forma de cobrança de impostos, a incluir plebeus em cargos na corte e traduzir livros para que o povo tivesse acesso ao conhecimento.

Até mesmo entre funcionários vemos o quão corruptos e elitistas alguns eram, sendo que nem consideravam a plebe como gente. Um bom exemplo disso, no dorama: eles mencionam uma lei contra abuso sexual, mas ela só poderia ser aplicada à elite quando o abuso é cometido contra alguém da mesma. Ela não se aplica aos plebeus, então imagine como homens de poder poderiam abusar do povo, sem punição.

O Palhaço Coroado

Curiosidade

O dorama é, na verdade, um remake do filme, também coreano, Masquerade (2012), que fez muito sucesso na época e rendeu vários prêmios. Felizmente o dorama não ficou preso somente ao roteiro original e conseguiu aprofundar, tanto história como personagens, para um melhor desenvolvimento dos episódios.

O Palhaço Coroado está disponível na Netflix, em 16 episódios. Dentre o resto, cenários, figurinos e ambientalização, os coreanos mostram como sabem muito bem trabalhar uma história de época, então não tenho nem do que reclamar. Acredito que este é um ótimo dorama, até mesmo para quem não curte muito esse tipo de história, porque cativa a todos.

Por: Letícia Vargas


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